domingo, 15 de fevereiro de 2015

Facebook, blogosferas e a nova língua portuguesa

Se você não frequenta os blogs de mamães antenadas que escrevem sobre maternidade, não vai me entender. Se você não frequenta o Facebook, então... Não vai me entender mesmo!...

Hoje quero falar da nova língua portuguesa. Aquela que mistura português, inglês, siglas e abreviações como se tudo fosse absolutamente óbvio para qualquer leitor.

Funciona mais ou menos assim:

"... Mammys queridas, estou com problemas p oferecer LM em LD para meu bb e por isso penso em trocar para LA. Acontece que meu sonho era ter tido PN e acabou sendo PC. Não sei o quanto isso pode prejudicar minha relação com meu filho. P ajudar ele é APLV e tem problemas com nuts. Estava ac alguns posts sobre kids que já passaram por isso e vi que existem opções. Vcs podem dar up p manter na time line?..."

Todo mundo entende. Daí começam as discusões e até agressões entre as defensoras das diversas linhas de maternidade como se só existisse um jeito certo de criar um filho e todos os outros fossem trazer danos irreparáveis a criança e sociedade por toda a eternidade.

Já vi gente culpando o LA (leite artificial, ou pode ser LV também, que é o leite de vaca) pela violência no mundo, pois quem amamenta em LM (livre demanda com leite materno, ou seja, toda a vez que o bebê pede) proporciona mais amor e consequentemente a criança se tornaria mais pacífica, no futuro um adulto melhor para o mundo.

E tem também as chamadas "menas mãe" que terceirizaram toda a educação e criação dos pequenos, em uma espécie de abandono. Ninguém quer ser "menas mãe"!... E assim temos brigas sem fim, muitas vezes sem o menos respeito as diferenças, mas cheias de siglas e códigos.

Confesso que acho engraçado. É como um caldeirão de culpa transbordando. Como se educar e criar filhos pudesse acontecer através de uma cartilha universal, com linguagem própria que serve para todas as mães do planeta e todas devessem segui-la em uma espécie de "catequese" coletiva em código.

Os temas mais polêmicos sem dúvida são sobre amamentação e o parto que pode ser cesariana (PC), parto normal (PN) e parto natural/humanizado.

Além disso, existem problemas como alergias. A sigla APLV (alergia a proteína do leite de vaca) é cada vez mais comum. E aí então a coisa complica, pois costuma estar associada a outras alergias como soja e castanhas (nuts em inglês). Sem contar as siglas dos exames e tipos de reações, claro.

Pensou que ser mãe seria fácil? Além de ter que dar conta de todas as mazelas do dia a dia, precisa aprender a se comunicar, para poder defender suas ideias, buscar respostas para perguntas no mundo digital onde "crianças" é uma palavra muito grande e vale mais a pena optar por "Kids".


sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

AS NOVAS IGREJAS DAS MÍDIAS SOCIAIS

Um fenômeno curioso que venho observando há algum tempo é a intolerância e agressividade das pessoas, umas com as outras, nas mídias sociais.

Funciona mais ou menos assim: "Quem não está comigo, está contra mim."
E isso se estende para qualquer assunto. Qualquer assunto mesmo.

Por exemplo, se faço parte de um grupo de notícias e quero vender um sofá, já é motivo de brigas, pois foge do propósito do grupo e além disso alguns acham que a pessoa deveria doar e não vender. Isso já dá margem para horas sem fim de discussão.

Se quero comprar um cachorro e não adotar, sou egoísta e quero usar o cachorro como símbolo de estatus, sou isensível pois não penso em todos os animais abandonados que existem por ai. Se quero adotar um cão, mas que não seja muito grande pois moro em lugar pequeno, sou exigente e desalmada, não sei o valor do amor de um animal, pois se soubesse jamais pediria algo tão cruel e sem cabimento.

E é assim mesmo. Com palavras duras e descabidas que os julgamentos correm solto entre desconhecidos.

Desta forma, pequenas "igrejas" vão surgindo. Dos assuntos mais variados.

O triste desse movimento nas mídias sociais, é perceber que as pessoas que fazem parte de uma "igreja" qualquer, não admitem se relacionar, conversar, trocar ideias com pessoas que pensem diferente, a não ser que seja para convencê-la de que ela deve aderir a sua "igreja".

Na época das eleições isso ficou insuportável. Pessoas que eram petistas não podiam mais de relacionar com quem era a favor do PSDB. E vice-versa. A todo momento eu via alguém dizer: "exclui mais um petista do meu perfil" ou "um tucano a menos na minha página".

Como toda "igreja" temos a ideia de um demônio que PRECISA ser eliminado. Daí ele aparece no outro que defende uma ideia diferente da minha. Assim, eu passo a atacá-lo loucamente, com todo ódio do mundo, uma pessoa que na maioria das vezes eu nunca vi e é a primeira vez com quem converso.

Jung falou muito disso quando discorreu sobre a sombra. No passado, a repressão sexual da qual Freud tanto comentou, deu margem para muita expressão de sombra. Hoje os temas são outros e a sombra tem se expressado nos grupos do Facebook, nos Foruns virtuais e por ai vai.

Na minha singela opinão, quanto mais maniqueísta e dono da verdade você for, pior para você. Como já diziam os Titãs, "Riquezas são diferenças". Eu gosto mesmo é de conversar com quem pensa diferente de mim. É onde eu aprendo e cresço. Eu não preciso concordar com a pessoa e nem ela comigo. Ela não é nem melhor, nem pior do que eu, nem mais "certa" ou "errada", apenas diferente. Podemos ser amigas.

Exercer a tolerância é muito importante para viver em harmonia. Se decidimos que só existe uma únca verdade absoluta, pode ser muito confortável, mas paramos de pensar. Se nosso diálogo só está aberto para a conversa com quem pensa igual a nós e o diferente precisa ser "catequizado" ou "eliminado", voltamos a idade média, a caça às bruxas e vamos passar a "queimar vivos" quem não for como nós.

O mito da atualidade se chama "Ciência". É o "Deus" de muitas igrejas. Ciências políticas, médicas, psicológicas, etc... O que a maioria das pessoas se esquece é que a ciência é feita pelos HOMENS (imperfeitos) e que a grande maioria das verdades que a ciência prega hoje, serão grandes absurdos amanhã. Uma das principais características da ciência (muito bem lembrada por Jung, diga-se de passagem) é essa: ela não está pronta, terminada.

Jung lembrava que sua teoria não estava acabada. Ele tinha apenas iniciado um caminho que é sem fim.

Desejo a todos os radicais mais flexibilidade. A todos os cheios de certezas, muitas dúvidas. Aos de esquerda, mais direita e aos de direita, mais esquerda.

E assim teremos um Feliz 2015 com mais paz, amor e gentileza nas mídias sociais e no mundo.
Podemos pensar diferente e nos relacionar sem "Affffffffeeeeeeeeeeee". E com muito respeito.
Beijão!
Renata






quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

É Proibido Chorar!

É proibido chorar.
Uma coisa muito interessante, frequentemente quando alguém está chorando eu escuto: "Não chora vai.... não fica assim... Promete que não vai mais chorar?"

Afinal, porque as pessoas acham que chorar é ruim?...

O choro expressa aquilo que as palavras não conseguem. Choramos de dor, de tristeza, mas também de alegria e de emoção. Choramos para desabafar, para relaxar, para aliviar. Tem coisas que só as lágrimas são capazes de expressar. Mas parece que o choro é visto como algo terrível, algo que deve ser evitado a todo custo.

Já pensou se você fosse proibido de chorar?... 

Por que não podemos tolerar que o outro se expresse. Temos que fazê-lo parar.

No caso dos bebês vivemos algo semelhante. E pior, usamos a chupeta, o peito, a mamadeira como esparadrapo das emoções. Infelizmente isso acaba forçando a associação: desconforto = comida, estresse = comida, emoção = comida, alegria = comida, confusão = comida e por aí vai... 


É irritante, mobiliza, é difícil, eu sei... Mas somos nós, pais, que precisamos gradativamente ir ensinando aos nossos filhos que comida não é resposta para tudo na vida. Que podemos desenvolver resiliência, força e habilidade para lidar com as complexidades da vida. Esse é o lento e gradativo caminho para a independência. 


Ah!... E fase oral não é sinônimo de passar p dia/noite inteiros mamando. Assim como na fase anal, etc... Fase oral porque a criança explora o mundo através da boca. 


E o mais importante: choro de frustração é diferente de choro de abandono. Frustração ok, faz parte da vida. Abandono esse sim é nocivo.


Veja esse vídeo do bebê chorando quando se emociona ao ouvir a mãe cantando:


https://www.youtube.com/watch?v=QhboZGNqOx4

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Preocupação ou obsessão? Mães e pais que se preocupam demais

Orgânicos. Como.
Escola. Só depois dos 3 anos.
Açúcar. Proibido.
Farinhas? Integrais.
Soja. Não trangênica. Aliás, nada trangênico, claro.
Comercial de TV. Ou até mesmo TV. Proibido.
Desenho animado. Só se for totalmente politicamente correto. Tom e Jerry e Pica pau, nem pensar.
Protetor solar? Dá câncer.
Cera alimentícia na maçã? Socorro.
Vacinas? De jeito nenhum. Ou nenhuma.
Celular? Só para controlar os filhos ou falar o essencial. Também dá câncer.
Babá? Só a eletrõnica. Não vou tercerizar meus filhos.
Amamentação. Obrigatória. 2 anos é o mínimo. Em livre demanda. E se você não puder ou não quiser amamentar, seu filho é um coitado e será lesado para o resto da eternidade. E vamos apedrejar a indústria do mal que faz leite artificial.

Outro dia conversava com uma pessoa que me falou:

"- Não consigo trabalhar. E sei por quê. Nasci de cesáriana.Não sei fazer esforço. Não tem jeito, é irreversível. Se minha mãe tivesse me parido de outra forma eu não teria dificuldade para ser produtiva."

Quase não acreditei. Eu nasci de cesariana e sou produtiva. O que é isso???

Existe uma diferença muito grande entre buscar as opções que acreditamos serem as melhores para a nossa vida e se tornar obsecada por um ideal impossível.

E como saber se eu só quero o melhor ou se eu estou doente?

A diferença é a flexibilidade. Claro que os orgânicos são melhores e eu também procuro comer sempre orgânicos. Mas eu não morro de ódio da cera na maçã. Não vou deixar de ir a um restaurante porque não é tudo orgânico. Se no mercado não tiver a opção super saudável, eu levo a outra e ninguém vai morrer por causa disso.

A impressão que tenho é que os aspectos obsessivos das pessoas, agora se expressam de outra forma. Antes elas não podiam pisar no "quadrado preto, só no branco", ou tinha que lavar as mãos BEM lavadas para evitar doenças. Agora mudou. O "mal" está na desenho da Peppa, na cera da maçã ou em qualquer imperfeição.

E eu pergunto. Qual o problema de ser imperfeito? Qual o problema do pai da Peppa ser meio bobo? Não existem pais meio bobos por ai?... Todo mundo tem que ser perfeito? O que é isso minha gente?...

Essa busca pela perfeição esconde uma obsessão pelos filhos. Um traço obsessivo que agora é alimentado não pela "industria do mal" mas pela "industria do bem" que também precisa de lucro para sobreviver e que coloca um monte de medos na cabeça das pessoas para gerar consumo.

Quando eu vi aquela mãe revoltada com a cera da maçã, logo pensei que iriam lançar a maçã orgânica sem cera alimentícia. E o vídeo com ela dizendo "eu não dou isso para minha filha" dispararia o motor da culpa das mães que não podem dar algo tão ruim, e que nem sabem que a tal da cera nem faz mal.

Não, não estou fazendo propaganda de nada. Minha intenção é dizer que por trás de tanta preocupação existe sim um traço obsessivo importante e que não pode ser menosprezado.

Uma coisa é se preocupar, buscar o melhor, questionar. Super saudável. Outra coisa é levar essa preocupação a níveis patológicos onde viver começa a ficar muito caro e complicado.

Pense nisso.

Minha avó viveu 96 anos. E nem sonhava com todas essas variaveis. Apesar de todos os poréns, a humanidade vive cada vez mais. Podemos e devemos buscar o melhor, sempre. Mas sem paranóia.

Um abraço com um pouquinho (não muito) de agrotóxico.
Rena
ta






domingo, 7 de setembro de 2014

Como saber se meu filho é mimado?

Todos os dias eu escuto frases com a palavra "mimado". Fulaninho ficou mimado, a filha da vizinha é mimada, o caçula é sempre mimado e por ai vai...

Mas como saber se nossos filhos estão sendo educados da melhor maneira possível? Sim, possível, pois perfeito é D´us e no mundo dos mortais nós erramos.

Em primeiro lugar quero deixar clara a diferença entre ser mimado e ser amado. Ser mimado tem a ver com a busca da realização de todos os desejos da criança. Ser amado é um sentimento que antes de tudo precisa ser percebido pelo outro. Eu sinto o amor.

Assim eu posso ser mimado e pouco amado, por exemplo.

O problema começa ai. Muitas pessoas acreditam que amar é sinônimo da realização de todos os desejos da pessoa amada. Só que os pais, além de amar, precisam educar, por amor.

A criança que tem todos os seus desejos atendidos, (e claro que não estou falando de um bebê recém nascido, eu me refiro a crianças maiores) não aprende a tolerar frustrações. Não aprende a batalhar suas conquistas. Acha que o mundo está ali para servi-la. A criança mimada fica brava demais quando não é atendida e não cria soluções criativas para encarar as adversidades. Ela acha que os outros tem que resolver seus problemas e não ela por si só.

Quando damos a chance da criança "se virar" sozinha, seja para subir em um brinquedo no parque, seja para solucionar um problema de matemática, seja para aprender a esperar sua vez de brincar ou jogar, estamos gradativamente expondo ela a situações onde ela usa recursos emocionais para lidar com suas frustrações. Se conseguimos expor a criança a doses suaves de frutração, ela naturalmente vai entendendo que o mundo não existe apenas para servi-la.

Porém, se eu realizo todos os desejos do meu filho, se eu não dou a chance dele se virar sozinho e ter suas conquistas, de aprender a lidar com seus erros, se eu não ensino a ele que suas atitudes tem consequências, eu crio uma realidade ilusória, um mundo que não existe. Só que o mundo está ai e não é feito só de pessoas dispostas a "mimar" nossos filhos. Uma hora eles vão ter que se virar.

E ai?...

E ai que cada dia é mais comum eu encontrar pessoas deprimidas, revoltadas, inadequadas, com uma grande dificuldade para encontrar um lugar na sociedade, se encaixar em um emprego ou atividade que exige disciplina, porque não entendem que tem que se esforçar, que precisam seguir regras e que o mundo não está disposto a ser "super compreensivo" nem a "suprir todas as suas necessidades" só porque precisam ou querem muito. 

O resultado é que essas pessoas vão começar a se frustrar de verdade na vida adulta e isso será muito doloroso. Nós pais não somos eternos.Não vamos conseguir suprir todas as necessidades de nossos filhos para sempre. Uma hora eles vão ter que se virar, vão ter que conquistar seu dinheiro sozinhos, muitas vezes formar uma família e transmitir a educação que receberam para nossos netos, ainda que melhorada.

Desta forma, um dos maiores presentes que podemos dar para nossos filhos é a capacidade de se virarem sozinhos. De ter resiliência, de saber cair e levantar, pois faz parte da vida. A criança mimada não consegue fazer esse movimento, não consegue se levantar sozinha, não consegue usar a criatividade para superar obstáculos e dar conta das derrotas inerentes a vida de todo mundo. Ela chora, esperneia e espera sempre que o OUTRO resolva seus problemas, sua dor. Ela é dependente e qualquer contrariedade a faz sentir desamparada e insegura. Ela não teve chance de aprender seus próprios recursos e que "tudo bem cair", a gente levanta.

Se você quer que seu filho seja um adulto capaz de viver bem em sociedade, não mime seu filho. Dar amor e mimar são duas coisas completamente diferentes. Ame, abrace, beije, faça massagem , carinho, lembre se sempre se reforçar e valorizar suas conquistas, de elogiar seus esforços. Mas dê também a chance dele se levantar  e se virar sozinho. Diga "não" quando for necessário, mostre os limites, seja firme (sem ser agressivo) e ensine a ele que não tem problema errar ou perder, é assim mesmo, faz parte da vida.

A confiança que você transmite ao seu filho de que ele é capaz e que você acredita que ele vai chegar lá, com as próprias pernas, que as quedas fazem parte, os erros fazem parte, mas o importante é saber jogar as regras do jogo e se esforçar, é um grande presente, uma enorme prova de amor que seu filho vai levar e usar por toda a vida.

Não realize todos os desejos da criança. Deixe ela se esforçar para plantar e colher os frutos das suas conquistas, acertos e erros. Amanhã ela vai te agradecer e não vai sofrer tanto quando o chefe recusar um aumento de salário ou quando a(o) namorada(o) lhe "der um fora".

"Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima"

Beijos sem muito mimo.
Renata

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Como educar sem bater. Posso dizer "não"?

Sempre achei que extremos são perigosos e na educação penso a mesma coisa.

Dá para educar sem bater? Dá sim. Bater é totalmente dispensável. È possível educar sem dar nem mesmo uma palmada.

E educar sem dizer "não"? É possível? Eu particularmente não acredito nisso.

A educação é um processo contínuo que exige muita paciência. Educar é de fato repetir. Repetir inúmeras vezes até que que a criança consiga entender, por exemplo , que precisa escovar os dentes, dar a descarga, tomar banho, fazer a lição de casa.

Mas além de repetir, o "não" tem um papel muito importante.

Quando dizemos "não" para alguns comportamentos de nossos filhos, ensinamos a eles que existem momentos em que podemos e devemos dizer esta palavra. Seja para nos proteger, seja para nos impor, seja para deixar a preguiça de lado (não vou brincar, vou estudar, por exemplo).

Nossa sociedade é feita de regras. Não podemos matar, roubar, ferir. No caso de crianças, não podemos pegar o brinquedo do amigo enquanto ele estiver brincando. Não podemos morder, nem empurrar. No caso dos adolescentes as coisas começam a ficar um pouco mais complexas. Não devemos beber demais, nem fazer sexo sem camisinha.

Lembro me bem da minha filha mais nova quando ela queria colocar o dedo na tomada. A casa é segura e não é possível que ela coloque. Mesmo assim, sempre achei importante sinalizar a ela que aquilo é perigoso, mesmo que ela ficasse muito brava comigo. Da mesma forma, não pode colocar milho no ouvido do cachorro. Mesmo que isso pareça super interessante.

Há momentos em que conseguimos distrair a criança com outra atividade e mudar o foco. Mas existem aqueles momentos em que a criança insiste em uma ação, mesmo sabendo que é errada, mesmo sabendo que vai trazer danos (como no caso do cachorro) E ai? O que fazer?...

Já escutei muito que colocar a criança de "castigo" é um crime contra a humanidade. Eu discordo.

A palavra "castigo" trás mesmo um sentido pejorativo, talvez seja necessário criar alguma outra palavra que possa caracterizar o ato de parar uma ação e refletir.

Atendi um casal que não dizia "não" para o filho de 2 anos e meio. Achava que isso iria traumatizá-lo. O resultado disso, era um menino muito difícil. Ele gostava de jogar as coisas pela janela. Qualquer coisa, desde controle remoto da TV, até alimentos. O problema é que ele morava em um edifício e a qualquer momento as coisas que ele arremessava poderiam ferir gravemente alguém. O síndico do prédio já havia advertido e os pais já tinham explicado para a criança que aquilo era feio e que poderia machucar muito uma pessoa que estivesse passando. Mas o menino continuava a arremessar os pertences da família pela janela. Ele de fato queria um limite.

Minha sugestão foi que tirassem os objetos da mão dele e que ele fosse privado de brincar com o que tentava arremessar. Desta forma, toda vez que ele ameaçasse jogar objetos pela janela, a brincadeira teria fim. Ele teria que parar o que estivesse fazendo e ficar de "castigo" até entender que aquilo era ruim e perigoso para outras pessoas. Além do prejuízo que trazia para a família que havia perdido muitos itens da casa por causa do comportamento do filho.

Assim foi feito. O menino ficou muito bravo. Não sabia o que era frustração. Se jogou no chão, gritou, e chegou até a colocar a mãozinha na garganta para provocar o vômito. Os pais ficaram preocupados. Acharam que ele queria dizer alguma coisa, que precisavam acolher aquela dor.

Acolheram, deram colo, se mostraram compreensivos. Coitadinho, é apenas uma criança. O menino se acalmou, se abraçaram e assim que parou de chorar o menininho levantou-se e foi direto para a janela jogar mais uma bolinha.

Colocar limites é essencial. Erik Neumann já dizia: "Os limites são tão importantes para o desenvolvimento sadio quanto o amor". Não tenha medo de colocar limites em seus filhos. Mesmo que eles fiquem muito, muito bravos com o "não". Esse "não" será introjetado e amanhã ele vai conseguir dizer "não" para muitas coisas como drogas, promiscuidade, preguiça e delinquência. Se seu filho não escutar essa palavra, ele não saberá dizer ela.

Ficar de "castigo" é uma forma de mostrar a criança que as coisas tem consequências. E tem mesmo. Experimente chegar atrasado no dia do vestibular. Ou não cumprir horários/prazos no seu novo emprego. A vida não é um playground. Existem regras que precisam ser cumpridas. Se gradativamente vamos ensinando nossos filhos que existem consequências, que existe troca e que ele precisa fazer a parte dele na família, na escola e mais tarde na sociedade, vamos aos pouco construindo o caráter, formando um cidadão.

Mas ao contrário, se nunca há consequência nenhuma, nenhum tipo de "castigo"(impedimento ou pausa para a reflexão) para os atos errados, se eu posso fazer tudo o que eu quero que não há consequências negativas, meus pais vão continuar me dando tudo o que estiver ao alcance deles, indiscriminadamente, não preciso me esforçar para nada, eu crio a ilusão de um mundo fantasioso onde a ação e reação não existem.

É claro que esse é um aprendizado gradativo. É claro que teremos que repetir infinitas vezes frases como "você escovou os dentes?" ou "fez a lição de casa?". Isso faz parte do processo da educação. Mas continuar premiando com presentes/passeios numa vida normal uma criança que não colabora, que não faz sua parte, não arruma seu quarto, não cumpre com suas obrigações de estudante, não ajuda nas tarefas domésticas, é o mesmo que dizer à ela que esforço é uma bobagem.

Disciplina e força de vontade são a chave para se alcançar qualquer objetivo. E para se ter disciplina e força de vontade, temos que aprender a dizer "NÃO" para desejos momentâneos, temos que abrir mão, fazer escolhas e muitas vezes sacrificar prazeres. Pergunte para qualquer pessoa bem sucedida quantas vezes na vida ela precisou se esforçar para chegar lá.

Disciplina e força de vontade se aprende pelo exemplo, mas também quando entendemos que na vida há consequências boas e ruins. Depende de nosso comportamento e de nossas escolhas.

Quando minhas filhas insistem em uma ação errada, nociva para elas ou para outros, elas ficam de "castigo" sim. E dessa forma elas aprendem que eu e o mundo não toleramos certos comportamentos. Elas aprendem a serem tolerantes a frustração e aprendem resiliência. Isso não diminui o amor que eu sinto por elas. Na verdade essa é uma grande prova de amor, pois educar e dizer "não" é muito mais difícil do que fazer todas as vontades das crianças.

Um abraço sem medo de educar,
Renata

Foto: http://www.rioeduca.net/blogViews.php?bid=18&id=3289



terça-feira, 26 de agosto de 2014

Os papeis do homem e da mulher na família atual.

Quando eu trabalho com o sono dos bebês, sempre peço para o pai comparecer a consulta.

Muitas mães acham estranho e perguntam, -"Para quê?"

Eu explico.

Há 60 anos atrás, os filhos eram responsabilidade única e exclusivamente das mulheres. Aos homens era destinado o papel de provedor e as crianças eram para ele, parte de um conjunto chamado família com quem ele se relacionava superficialmente no fim de um dia de trabalho. Quando muito, a mãe pedia socorro para o pai ajudar em algum problema mais sério que ela não havia conseguido resolver sozinha durante o dia.

A casa era igualmente cuidada pela mulher. Eletrodomésticos como máquina de lavar louça eram caros e começaram a ficar mais populares no fim da década de 80. Micro ondas, freezer, aspiradores de pó com funções diversas e mais ergonîmicos ( já temos até o aspirador robô), secadora de roupas e mesmo lavadora de roupas mais modernas e com funções específicas, tudo isso começou a sair do imaginário coletivo e do desenho dos Jetsons para o dia a dia das familias brasileiras há pouco tempo.

Isso passou a dar mais autonomia para as mulheres. Por outro lado, a figura da empregada doméstica, muito comum no Brasil até hoje, começou a ficar mais rara. As novas leis trabalhistas e os altos salários exigidos pelas profissionais, aos poucos começaram a mudar a cara do cenário da família brasileira.

Com mais recursos tecnológicos e menos mão de obra doméstica, as mulheres começam a se perguntar: Se eu posso trabalhar fora e cuidar da casa ao mesmo tempo, por que meu marido não pode colaborar?

Sim. Essa palavra é muito importante: colaborar.

Eu sempre escuto as mulheres dizerem que seus maridos as ajudam ou não. Essa palavra "ajuda" já parte do princípio de que a tarefa é da mulher e o homem pode ou não ajudá-la. Já a palavra "colaborar", subintende que os cuidados com a casa é responsabilidade de ambos. Assim como a criação e educação dos filhos.

Quando o marido colabora e participa dos cuidados da casa e dos filhos, forma-se uma parceria entre o casal. Ninguém fica sobrecarregado. Os eletrodomésticos auxiliam e enquanto um dá banho nas crianças, o outro pode tirar a louça da máquina. O casal se une, ninguém fica cansado demais e sobra tempo e energia um para o outro.

O problema costuma acontecer quando os cuidados com os filhos e a casa ficam a cargo apenas de um dos cônjuges. Neste caso, pode haver um distanciamento entre os membros do casal que acaba não compartilhando da mesma realidade. Os problemas não são os mesmos, e muitas vezes ocorre uma alienação com relação as dificuldades que o outro vive no dia a dia.

Assim, se o bebê acorda a noite isso é problema em geral da mãe. Ela que resolva. O pai parte do princípio de que a mãe "não faz mais nada" além de cuidar dos filhos e da casa (como se isso fosse pouco), ele tem que acordar cedo, então ela que se vire. Muitas mulheres se veem sozinhas, sobrecarregadas, incompreendidas em suas dificuldades e acabam se distanciando dos maridos.

O primeiro impacto é na vida sexual. Cansadas e se sentindo sozinhas, a libido cai. Namorar com o marido no meio das fraldas, da Peppa, do leite, do choro e de tudo ao mesmo tempo, não é fácil.

Na minha visão, esse modelo de família onde o marido trabalha fora de casa e a mulher dentro de casa, precisa ser revisto. As mulheres também tem o direito a realização profissional e seus sonhos não necessariamente se resumem apenas a maternidade. Estudar e ter independência financeira é cada vez um desejo mais comum entre as mulheres. E totalmente compatível com a maternidade.

Paralelamente, também percebo que muitos homens começam a descobrir a delícia que é estar com os filhos. Participar da rotina, cuidar, alimentar, passear, colocar para dormir, tudo isso pode e deve ser feito também pelo pai. Todos ganham. As crianças desfrutam desse vínculo tão importante, vivenciam outro modelo, se aproximam do masculino. O pai tem um encontro de amor com seus filhos, passa a os conhecer pessoalmente, através de sua visão própria e não apenas através do discurso da mãe. E a mãe ganha um parceiro que a liberta, que a compreende, que a apoia, que fala a mesma língua e experiencia sua realidade doméstica.

Da mesma maneira, se a mulher trabalha também fora de casa, ela consegue oxigenar suas ideias, tem outros assuntos além dos domésticos, compreende melhor as demandas profissionais do marido, compartilha de suas ambições e pode se unir a ele na busca por crescimento pessoal e profissional.

E as crianças? Ficarão abandonadas? Terceirizadas? Inseguras?

De jeito nenhum. Muito pelo contrário. Elas serão cuidadas pelo casal. Podem sim ir a escola, socializar, conviver com outros adultos e crianças, desenvolver suas habilidades intelectuais para depois desfrutar de ambos os pais. Se a família optar por não colocar as crianças na escola, o tempo destinado aos cuidados com os filhos precisa ser pensado de forma que ambos, pai e mãe, tenham responsabilidade com relação a esses cuidados, ainda que eventualmente, ou por um período de tempo,
os ganhos financeiros sejam menores.

Vale a pena! Nossos filhos são o nosso maior patrimônio!
Beijos de uma mãe que trabalhar dentro e fora de casa!
www.terapeuta.psc.br

foto : http://www.kidsvitrine.com.br/2014/08/cresce-numero-de-pais-que-ficam-em-casa.html