terça-feira, 26 de agosto de 2014

Os papeis do homem e da mulher na família atual.

Quando eu trabalho com o sono dos bebês, sempre peço para o pai comparecer a consulta.

Muitas mães acham estranho e perguntam, -"Para quê?"

Eu explico.

Há 60 anos atrás, os filhos eram responsabilidade única e exclusivamente das mulheres. Aos homens era destinado o papel de provedor e as crianças eram para ele, parte de um conjunto chamado família com quem ele se relacionava superficialmente no fim de um dia de trabalho. Quando muito, a mãe pedia socorro para o pai ajudar em algum problema mais sério que ela não havia conseguido resolver sozinha durante o dia.

A casa era igualmente cuidada pela mulher. Eletrodomésticos como máquina de lavar louça eram caros e começaram a ficar mais populares no fim da década de 80. Micro ondas, freezer, aspiradores de pó com funções diversas e mais ergonîmicos ( já temos até o aspirador robô), secadora de roupas e mesmo lavadora de roupas mais modernas e com funções específicas, tudo isso começou a sair do imaginário coletivo e do desenho dos Jetsons para o dia a dia das familias brasileiras há pouco tempo.

Isso passou a dar mais autonomia para as mulheres. Por outro lado, a figura da empregada doméstica, muito comum no Brasil até hoje, começou a ficar mais rara. As novas leis trabalhistas e os altos salários exigidos pelas profissionais, aos poucos começaram a mudar a cara do cenário da família brasileira.

Com mais recursos tecnológicos e menos mão de obra doméstica, as mulheres começam a se perguntar: Se eu posso trabalhar fora e cuidar da casa ao mesmo tempo, por que meu marido não pode colaborar?

Sim. Essa palavra é muito importante: colaborar.

Eu sempre escuto as mulheres dizerem que seus maridos as ajudam ou não. Essa palavra "ajuda" já parte do princípio de que a tarefa é da mulher e o homem pode ou não ajudá-la. Já a palavra "colaborar", subintende que os cuidados com a casa é responsabilidade de ambos. Assim como a criação e educação dos filhos.

Quando o marido colabora e participa dos cuidados da casa e dos filhos, forma-se uma parceria entre o casal. Ninguém fica sobrecarregado. Os eletrodomésticos auxiliam e enquanto um dá banho nas crianças, o outro pode tirar a louça da máquina. O casal se une, ninguém fica cansado demais e sobra tempo e energia um para o outro.

O problema costuma acontecer quando os cuidados com os filhos e a casa ficam a cargo apenas de um dos cônjuges. Neste caso, pode haver um distanciamento entre os membros do casal que acaba não compartilhando da mesma realidade. Os problemas não são os mesmos, e muitas vezes ocorre uma alienação com relação as dificuldades que o outro vive no dia a dia.

Assim, se o bebê acorda a noite isso é problema em geral da mãe. Ela que resolva. O pai parte do princípio de que a mãe "não faz mais nada" além de cuidar dos filhos e da casa (como se isso fosse pouco), ele tem que acordar cedo, então ela que se vire. Muitas mulheres se veem sozinhas, sobrecarregadas, incompreendidas em suas dificuldades e acabam se distanciando dos maridos.

O primeiro impacto é na vida sexual. Cansadas e se sentindo sozinhas, a libido cai. Namorar com o marido no meio das fraldas, da Peppa, do leite, do choro e de tudo ao mesmo tempo, não é fácil.

Na minha visão, esse modelo de família onde o marido trabalha fora de casa e a mulher dentro de casa, precisa ser revisto. As mulheres também tem o direito a realização profissional e seus sonhos não necessariamente se resumem apenas a maternidade. Estudar e ter independência financeira é cada vez um desejo mais comum entre as mulheres. E totalmente compatível com a maternidade.

Paralelamente, também percebo que muitos homens começam a descobrir a delícia que é estar com os filhos. Participar da rotina, cuidar, alimentar, passear, colocar para dormir, tudo isso pode e deve ser feito também pelo pai. Todos ganham. As crianças desfrutam desse vínculo tão importante, vivenciam outro modelo, se aproximam do masculino. O pai tem um encontro de amor com seus filhos, passa a os conhecer pessoalmente, através de sua visão própria e não apenas através do discurso da mãe. E a mãe ganha um parceiro que a liberta, que a compreende, que a apoia, que fala a mesma língua e experiencia sua realidade doméstica.

Da mesma maneira, se a mulher trabalha também fora de casa, ela consegue oxigenar suas ideias, tem outros assuntos além dos domésticos, compreende melhor as demandas profissionais do marido, compartilha de suas ambições e pode se unir a ele na busca por crescimento pessoal e profissional.

E as crianças? Ficarão abandonadas? Terceirizadas? Inseguras?

De jeito nenhum. Muito pelo contrário. Elas serão cuidadas pelo casal. Podem sim ir a escola, socializar, conviver com outros adultos e crianças, desenvolver suas habilidades intelectuais para depois desfrutar de ambos os pais. Se a família optar por não colocar as crianças na escola, o tempo destinado aos cuidados com os filhos precisa ser pensado de forma que ambos, pai e mãe, tenham responsabilidade com relação a esses cuidados, ainda que eventualmente, ou por um período de tempo,
os ganhos financeiros sejam menores.

Vale a pena! Nossos filhos são o nosso maior patrimônio!
Beijos de uma mãe que trabalhar dentro e fora de casa!
www.terapeuta.psc.br

foto : http://www.kidsvitrine.com.br/2014/08/cresce-numero-de-pais-que-ficam-em-casa.html

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O discurso autoritário

E então as pessoas me perguntam:

"Você é a favor do quê? E contra o quê?"

É exatamente esse o meu ponto.

Eu pessoalmente, estou mais para natureba, ambientalista, ecologista com fortes tendências vegetarianas. Como orgânico e me preocupo bastante com a alimentação.

Mas não imponho minha verdade a ninguém. Não sou a favor de nada a todo custo. Sou contra o discurso autoritário.

Aquele discurso mais ou menos assim: "Quem não está comigo, está contra mim."

E não me refiro apenas a um assunto. Não gosto de autoritarismo em nenhum campo. Nem na política, nem na saúde, nem no parto (nem no prato), nem na escola, nem no casamento, nem na sexualidade, nem na afetividade, nem em lugar nenhum do universo. Amo a democracia, amo a reflexão e o respeito às diferenças. Amo o diálogo. Ficar reafirmando um discurso (qualquer que seja) para mim é uma atitude pouco produtiva.

O que eu percebi, e por isso resolvi escrever sobre o assunto, é que muitas mães chegavam ao consultório cheias de culpa, algumas doentes de sono, com casamentos em crise, deprimidas, por quererem corresponder a um ideal qualquer. Percebi que existia na internet uma corrente de mulheres com tempo para escrever e defender suas ideias, coisas que nem todas as mulheres conseguem fazer, principalmente as que precisam ou optaram por trabalhar dentro ou fora de casa, ou ainda foram atrás de sua realização profissional, conciliando carreira com maternidade.

Essas mulheres estavam sem voz. E eu resolvi dar voz à elas.

Imediatamente comecei a ser julgada, exatamente como essas mães são. Pessoas que nunca conversaram comigo, falando (desculpem o termo) um monte de abobrinhas. Chega a ser um pouco (ou muito) engraçado, com todo o respeito. Até terapia me mandaram fazer! Olha o grau do absurdo, eu faço terapia há mais de 22 anos. As pessoas não tem a menor ideia do que soltam na internet e falam do outro, que se quer conhecem, não sabem absolutamente nada a respeito, com uma propriedade e arrogância que chega a dar medo.

Não é a toa que as mães que me procuram chegam confusas e atordoadas por esse discurso autoritário.

Se você me perguntar, eu vou te dizer que não sou contra o parto natural, nem normal, nem a cesáriana. Sou contra a falta de respeito a escolha da mulher seja ela qual for. Não acho que uma pessoa que escolheu uma cesariana é menos informada que a que escolheu um parto  normal. Isso é uma falácia. E também não acho que a pessoa que fez o parto natural regrediu aos tempos das cavernas. Ambas tem direito de viver sua experiência da maneira que acreditam ou que se identificam.

Apesar de algumas mulheres jurarem de pés juntos que respeitam as escolhas das outras, basta alguém dizer que quer "dormir", algo simples como isso, que o bombardeio começa. E não precisa ir longe. Leia os comentários dos blogs e você verá o grau da intolerância, da arrogância e da agressividade.

Acho que o movimento do parto humanizado, por exemplo, tem uma importância muito grande para combater a ditadura da cesária. Mas tem que tomar cuidado para não virar ele mesmo outra ditadura.

"A pior ditadura não é a que aprisiona o homem pela força, mas sim pela fraqueza, fazendo o refém das próprias necessidades" Julia Lícia

"Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim" Millor Fernandes

"A grande força da democracia é confesar-se falível de imperfeição e impureza, o que não acontece com os sistemas totalitários, que se auto promovem em perfeitos e oniscientes para que sejam irresponsáveis e onipotentes" Ulisses Guimarães

Para finalizar, uma frase que resume bem o que penso, não sei de quem é:


E viva a liberdade! Abaixo a ditadura!
Beijos com muita imperfeição e humanidade
Renata


Mãe que é mãe não dorme???

É verdade que mãe que é mãe não pode dormir? É verdade que para o meu bebê se sentir seguro eu preciso ficar com ele grudado no corpo dia e noite, 24 horas por dia 365 dias por ano por 2 anos ou mais? É verdade que se eu não fizer cama compartilhada meu bebê será uma criança menos feliz, menos amada?

Muita calma nessa hora.
Há uma grande confusão, para não dizer uma enorme confusão com relação a esse assunto.

Pessoal adora a Organização Mundial da Saúde, então vamos falar dela.

Primeiramente é muito importante entender que, segundo a OMS e vários autores que estudaram o desenvolvimento infantil, existe uma grande diferença do ponto de vista psicológico entre um bebê recém nascido, um bebê de 3 meses, um bebê de 6 meses, de 1 ano, 1 ano e meio e dois anos. Estes são marcos do desenvolvimento infantil, ou seja, os recursos psicológicos de um bebê recém nascido não são os mesmos de um bebê de 6 meses, que por sua vez vão mudando conforme ocorre o crescimento.

A amamentação é indicada até 2 anos ou mais, porém a OMS recomenda livre demanda para recém nascido e não para bebês de 2 anos ou mais. O desmame deve ser iniciado aos 6 meses de idade com o início da alimentação sólida. Iniciado não quer dizer que a mãe deve parar de amamentar. Significa que vamos começar a introduzir almoço e depois o jantar. Ou seja, vamos começar a estipular horários para as refeições.

Desta maneira, antes dos 6 meses é absolutamente normal o bebê acordar para mamar. Depois que a alimentação sólida é introduzida e o aporte calórico do dia passa a ser fornecido durantes as refeições, é importante que o bebê possa e consiga dormir durante a noite. É importante para o bebê e para a mãe. Privar-se de sono em nome da livre-demanda depois que o bebê tem mais de 6 meses não é saudável e trás consequências que podem variar de irritação e agressividade, até agitação e hiper atividade e em alguns casos depressão. Se a privação de sono perdurar, a consequência pode até levar a psicose.

A mesma OMS tão citada pelas mães, que recomenda a amamentação (e eu também sou super a favor da amamentação), NÃO recomenda a cama compartilhada.

E quais as diferenças psicológicas entre os bebês nas diversas fases da vida?

O recém-nascido precisa ser alimentado em livre demanda, precisa ficar grudadinho nos pais. A mãe de fato é um peito. O bebê enxerga pouco e por isso o bico do seio fica maior e mais escuro, justamente para que ele seja capaz de encontrá-lo. Mãe e filho ainda estão misturados. A saída do útero ainda é muito recente e precisamos dar suporte para que o bebê entenda que aqui fora o ambiente é favorável. As necessidades do bebê, nesta fase, precisam ser prontamente atendidas, para que o bebê forme uma base segura no mundo. Winnicott chamou essa fase de "fase autistica normal".

Entre 2 e 5 meses, entramos na fase conhecida como "simbiótica", ou seja, o bebê ainda não consegue ter claro que ele e sua mãe são duas pessoas diferentes. Amamentar (ou dar a mamadeira se for o caso) fazendo contato visual, sorrir para o bebê, a maneira como o seguramos, como fornecemos amor e afeto, a importância do toque e do contato pele/pele, tudo isso vai propiciando ao bebê entender que ele e a mãe são dois seres distintos. Aos 5 meses a presença indispensável do pai (ou de quem faça o papel do pai) fará o corte do "segundo cordão umbilical". O pai precisa começar a atuar no sentido de romper a simbiose mãe e filho e permitir que a criança que se ligue a outra realidade psiquica além da mãe. Aqui começa a nascer uma identidade nova, um processo longo e gradual que precisa ser estimulado pelos pais.

Aos 6 meses ocorre uma grande mudança. A criança aprende a sentar e passa a ver o mundo de outro ângulo. Ela não apenas mama, mas começa a se alimentar e a ver a mãe de outra forma, ela já começa a perceber que a mãe não é apenas um peito, mas um ser inteiro e que vai e volta. Essa ideia de que a mãe existe, mesmo que não esteja na frente dela é subjetiva e precisa ser construida, vivenciada, para que a criança consiga se reconhecer como individuo único e separado. A mãe que permanece simbiótica após o período normal, dificulta esse entendimento de que ela e a criança são dois seres distintos.

Se o bebê vive grudado na mãe 24 horas por dia, depois da fase simbiótica, como eu já conheci várias vezes, casos de mães que não conseguiam se separar dos filhos nem para ir ao banheiro, se ele não percebe que ela e ele (bebê) são pessoas diferentes, se não há essa diferenciação, eu e o mundo somos a mesma coisa. Aqui está a semente das psicoses.

É na falta, na ausência, que o bebê maior consegue perceber essa diferenciação. Por isso ela é tão importante. 

Óbvio que essa separação não precisa ser longa demais a ponto de criar uma angústia insuportável. Ela precisa acontecer de forma gradativa e única em cada caso, mas precisa ocorrer.

Daí eu escuto que não... Que se assim fosse, todos os índios seriam psicóticos. Então eu pergunto, de onde tiraram a ideia que a índia passa o dia inteiro deitada na rede tomando água de coco amamentando por 2 anos ou mais sem fazer mais nada da vida ?... A índia sobe na árvore para "colher manga" e o bebê tem que esperar ela voltar, os índiozinhos muitas vezes são cuidados e amamentados por mais de uma índia ou por grupos de índias, enquanto outras vão plantar e colher. Sem falar que as organizações sociais variam enormente de tribo para tribo. Inclusive algumas tribos tem rituais muito cruéis e agressivos.

Há relatos que descrevem que os indiozinhos quando começam a engatinhar, se AFASTAM e VOLTAM quando querem, sem que haja preocupação com relação a isso. Ainda que existam tribos onde a mulher pare as demais atividades para se dedicar apenas a amamentação, é muito importante lembrar que as índias vão dormir quando o sol se põe e acordam quando o sol nasce. Elas não ficam na internet até altas horas da madrugada, não assistem o Jô Soares ou outros programas de TV. Não vão ao cinema sábado a noite, nem saem para fazer happy hour com as amigas. Se elas não tem forças, ou não querem fazer sexo com seu parceiro, ele comunmente tem outras parceiras para suprir as necessidades deles. 

Então, se vamos viver como os índios, vamos adotar todo seus sistema e não apenas uma parte, como se fosse saudável submeter uma mulher que vive em uma cidade cheia de lâmpadas e espera o marido chegar a noite em casa para jantar e assistir tv, depois conversar e ir dormir por volta das 22hs (nessas a índia já está dormindo desde as 18:30hs) o mesmo esquema de uma mulher com hábitos completamente diferentes.

Sem falar na hérnia de disco, afinal a índia teve seu primeiro filho na adolescência quando seu corpo é super jovem e acostumado a atividade física diária. Assim, ela consegue carregar um bebê ou mais (ou uma cesta cheia de frutos) o dia inteiro nas costas, enquanto na nossa sociedade a mulher passa o dia inteiro sentada ou parada, vai estudar, trabalhar, usa o carro, salto alto, o elevador, a escada rolante e quando o bebê nasce muitas vezes já está com mais de 30 anos e uma vida bem mais sedentária que a da índia. E quer se cobrar um comportamento idêntico?... Muito cruel.

E as mães de gêmeos? Ou tri gêmeos?... Cada vez mais comum atualmente, todas teriam filhos problemáticos pois é humanamente impossível amamentar 3 bebês em livre demanda por 2 anos ou mais, sem delegar, sem ter a ajuda de alguém que não seja a mãe, "terceirizando" os cuidados com os bebês.

Eu sigo tudo aquilo que passei 3 anos estudando (e até hoje estudo) durante o meu mestrado em psicologia clínica. No ínicio da vida, até os 6 meses de idade, é mesmo muito importante respeitar a necessidade dos bebês de ficarem bem próximos da mãe. Eu incluo nessa conta o pai que, quando faz parte do processo, não deixa a mãe tão sobrecarregada e propicia ao bebê vivenciar outro tipo de vínculo que é simplesmente maravilhoso.

Quando a mãe abre espaço para o pai fazer esse vínculo, usar o sling, acalmar o bebê que quando chora não precisa apenas mamar, mas muitas vezes pode ser acalmado e acolhido de outras maneiras, mesmo na fase oral. Quando o bebê experiencia outra realidade psiquica além da mãe 24 hs, ele passa a entender que ele e a mãe são seres distintos.
Da mesma maneira, pequenas ausências ajudam o bebê a perceber que a mãe vai, mas volta, criando o que Bowlby e Mary Ainsworth  chamaram de apego seguro.

Ao contrário, se a mãe é muito ansiosa, excessivamente protetora, não confia na capacidade do bebê de conquistar gradativamente sua independência e não permite que o bebê se separe dela, nem para dormir, teremos o que Bowlby/ Ainsworth chamaram de apego ansioso.

Com 1 ano o bebê começa a andar, mudando novamente sua forma de se relacionar com o mundo. Ele já tolera afastamentos maiores e se é seguro, não se apavora quando a mãe sai de perto pois sabe que ela volta.

Com 1 ano e meio em geral o bebê começa a se comunicar com palavras e dá início a um processo onde gradativamente não vai mais precisar chorar quando quer expressar algo. Aos poucos ele poderá dizer o que quer.

Com dois anos o bebê tem mais noção de tempo e espaço. Já se espera que ele esteja ligado a outras figuras cuidadoras além da mãe, como o pai, os avós e/ou outras pessoas da família com quem o bebê esteja acostumado a estar.

Ou seja, durante toda a primeira infância, o processo de autonomia, independência e nascimento da identidade do bebê é gradual deve ser incentivado pelos pais. O bebê recém nascido não tem as mesmas necessidades de um bebê de 6 meses, que por sua vez tem necessidades diferentes de um bebê de 1 ano.

Pode parecer óbvio, mas vejo muitas mães cuidarem de bebês de 1 ano como se tivessem 1 mês.

O sono segue a mesma linha. O recém-nascido precisa receber cuidados diferentes do bebê de 6 meses. Seu relógio biológico é diferente e suas necessidades psiquicas também. É absolutamente normal acordar a noite para mamar.

Com 6 meses, o bebê já tem mais resiliência, mais recursos físicos e psiquicos e já começa a ser capaz de dormir por um número maior de horas, principalmente quando começa a comer bem durante o dia. Assim não é mais necessário amamentá-lo durante a noite. Mas a amamentação pode e deve ser mantida durante o dia.

Parar de amamentar durante a madrugada, na nossa sociedade onde existe energia elétrica, internet, cinema, televisão, tablet, monogamia e as mães não vivem como as índias, é muito importante para garantir a saúde física e psiquica tanto das mães que amamentam, como dos filhos que precisam ter uma mãe descansada e disposta para cuidar deles e/ou trabalhar no dia seguinte, seja dentro ou fora de casa.

Temos direito ao descanso.

Um grande abraço,
Renata
www.terapeuta.psc.br

Foto: http://souzasantos.com.br/more/a-importancia-de-dormir-bem/


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Guerra de Mães na Internet?... Quem é o dono da verdade?

Estava dando uma olhada nos blogs de mães que existem no Brasil e resolvi me pronunciar sobre isso.

Muito interessante. Existe uma verdadeira guerra de "verdades", uma competição entre as mães para dizer que tipo de mãe é o certo, que tipo de mãe é mais mãe, mais verdadeira, mais "natural", mais realizada, mais, mais, mais... Quem amamenta mais, quem se entrega mais, quem vive mais a maternidade, quem está mais próxima do ideal.

Que triste isso.

Imediatamente veio a pergunta, pra que tudo isso?

Linhas e linhas de relatos romanceados de experiências "ma-ra-vi-lho-sas" que carregam a mensagem de que a experiência descrita é a melhor, a mais certa, a ideal, a que deve ser seguida.

Seu bebê usa chupeta? Precisou de leite artificial? Nasceu de cesária? Então você não sabe nada. Você não leu, não se informou, não sabe o que é ser feliz, não ofereceu o melhor ao seu filho. E dá-lhe culpa!

Do outro lado mães defendendo o direito ao trabalho e a realização profissional, ou o direito a escolha de um parto cesário, ou a qualquer outra escolha que não seja a mais "natural" (entre aspas mesmo).

E quem está certo(a)? Ninguém. Ninguém mesmo. Que me desculpem as donas da verdade, mas verdade é única e exclusiva para cada ser humano. Seu marido pode ser ótimo para você e não para mim. Seu estilo de vida pode ser lindo para você e não para sua prima. Amamentar pode ser maravilhoso para algumas mulheres e muito complicado para outras.

E o mais incrível é a agressividade dos debates, como se não houvesse espaço para o diferente. E as amigas de cada "time" se unem para atacar quem pensa diferente delas. É como se fosse uma igreja da maternidade onde estarão "salvos" aqueles que rezam uma determinada bíblia. E só estes.

No meio dos desabafos e dos "sinta-se abraçada amiga", muitas mães deprimidas, culpadas demais, desamparadas por quererem corresponder a um modelo pré determinado.

E claro, o assunto sono sempre surge.

E eu queria saber em qual pesquisa está descrito que o bebê que dorme a noite toda sofreu "desmame noturno precoce".

Qualquer pediatra, natureba ou não, sabe que após os 6 meses, depois que o bebê já está se alimentando bem com os sólidos, ele já é capaz de dormir a noite, sem precisar mamar. Mesmo que ele mame no peito. Ora, tenho 2 filhas que mamaram quase 1 ano. A segunda ficou com amamentação exclusiva no peito por 7 meses por causa de alergia a proteína do leite e ambas NÃO precisaram mamar durante a madrugada. Recebo em meu consultório diariamente mães que desejam dormir a noite, que PRECISAM dormir a noite e nem por isso alguém deixou de amamentar. Inclusive prolongadamente.

O problema é que as mães confundem livre demanda com usar o peito para induzir o sono. E ai, se você deseja fazer isso, usar seu peito (ou mamadeira, ou qualquer outra coisa) para induzir o sono do seu filho por 2 anos ou mais, saiba que você é de uma classe social privilegiada que pode se dar ao luxo de dormir durante o dia enquanto muitas mulheres necessitam trabalhar para sobreviver. E que elas não são menos mães por isso. Muito menos egoístas. Por favor, não use esse discurso da amamentação para justificar a prática de induzir o sono do seu filho.

Sou mega a favor da amamentação. Para poder amamentar minha caçula ia e voltava São Paulo/Cotia de 2 em 2 horas. Mas sei que amamentar não é algo puramente biológico. Existem aspectos psicológicos muito importantes envolvidos nesse ato. Às vezes a mãe não quer ou não consegue amamentar seu filho, por milhares e diversas questões. Existem também os bebês adotados que
precisam ser amamentados com leite artificial. Nem sempre a traslactação é algo desejado ou possível.

E ai? Vamos queimar essas mulheres vivas? Vamos dizer que são umas coitadas, perversas, egoístas, menos mães, ignorantes, desinformadas e que perderam o melhor da festa? De jeito nenhum.

A palavra de ordem aqui é respeito. Respeito a escolha daquilo que é possível para cada mulher. Respeito a realidade de cada ser humano, seja ela financeira, emocional, física, social ou psíquica. Vivemos em uma democracia. As pessoas tem o direito a escolha. Não existe um único caminho para a saúde e felicidade. Isso é uma grande, enorme bobagem. Do ponto de vista da composição, o leite materno é mais saudável, fato. Mas o leite materno dado com raiva, com mágoa, ressentimento, por uma mulher contrariada e que não quer amamentar é pior que dar uma mamadeira com afeto e paz. A criança sente, percebe.

Meu recado para as mães de todo o mundo: Não comprem receitas prontas do que é certo ou errado. Informe-se e escolha. Faça você a sua história. Não há verdade absoluta. A única coisa absolutamente certa na vida é que um dia vamos morrer. Mesmo a ciência muda de tempos em tempos e axiomas caem, como o ovo que já foi o grande vilão das dietas e hoje não é mais.

Você é livre. Pratique aquilo que faz sentido para você. Se você estiver feliz, realizada, descansada e seus filhos puderem conviver com uma pessoa assim, é muito melhor do que querer corresponder a um ideal imaginário de perfeição que nada tem a ver conosco seres humanos.

Além disso, seria bem melhor se deixássemos as bandeiras de lado e pudéssemos trocar experiências, ideias, pensamentos. O debate é construtivo quando há troca, respeito.

Viva a democracia! Viva o direito de ser livremente!

Beijos para todas as mães imperfeitas como eu!