sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

AS NOVAS IGREJAS DAS MÍDIAS SOCIAIS

Um fenômeno curioso que venho observando há algum tempo é a intolerância e agressividade das pessoas, umas com as outras, nas mídias sociais.

Funciona mais ou menos assim: "Quem não está comigo, está contra mim."
E isso se estende para qualquer assunto. Qualquer assunto mesmo.

Por exemplo, se faço parte de um grupo de notícias e quero vender um sofá, já é motivo de brigas, pois foge do propósito do grupo e além disso alguns acham que a pessoa deveria doar e não vender. Isso já dá margem para horas sem fim de discussão.

Se quero comprar um cachorro e não adotar, sou egoísta e quero usar o cachorro como símbolo de estatus, sou isensível pois não penso em todos os animais abandonados que existem por ai. Se quero adotar um cão, mas que não seja muito grande pois moro em lugar pequeno, sou exigente e desalmada, não sei o valor do amor de um animal, pois se soubesse jamais pediria algo tão cruel e sem cabimento.

E é assim mesmo. Com palavras duras e descabidas que os julgamentos correm solto entre desconhecidos.

Desta forma, pequenas "igrejas" vão surgindo. Dos assuntos mais variados.

O triste desse movimento nas mídias sociais, é perceber que as pessoas que fazem parte de uma "igreja" qualquer, não admitem se relacionar, conversar, trocar ideias com pessoas que pensem diferente, a não ser que seja para convencê-la de que ela deve aderir a sua "igreja".

Na época das eleições isso ficou insuportável. Pessoas que eram petistas não podiam mais de relacionar com quem era a favor do PSDB. E vice-versa. A todo momento eu via alguém dizer: "exclui mais um petista do meu perfil" ou "um tucano a menos na minha página".

Como toda "igreja" temos a ideia de um demônio que PRECISA ser eliminado. Daí ele aparece no outro que defende uma ideia diferente da minha. Assim, eu passo a atacá-lo loucamente, com todo ódio do mundo, uma pessoa que na maioria das vezes eu nunca vi e é a primeira vez com quem converso.

Jung falou muito disso quando discorreu sobre a sombra. No passado, a repressão sexual da qual Freud tanto comentou, deu margem para muita expressão de sombra. Hoje os temas são outros e a sombra tem se expressado nos grupos do Facebook, nos Foruns virtuais e por ai vai.

Na minha singela opinão, quanto mais maniqueísta e dono da verdade você for, pior para você. Como já diziam os Titãs, "Riquezas são diferenças". Eu gosto mesmo é de conversar com quem pensa diferente de mim. É onde eu aprendo e cresço. Eu não preciso concordar com a pessoa e nem ela comigo. Ela não é nem melhor, nem pior do que eu, nem mais "certa" ou "errada", apenas diferente. Podemos ser amigas.

Exercer a tolerância é muito importante para viver em harmonia. Se decidimos que só existe uma únca verdade absoluta, pode ser muito confortável, mas paramos de pensar. Se nosso diálogo só está aberto para a conversa com quem pensa igual a nós e o diferente precisa ser "catequizado" ou "eliminado", voltamos a idade média, a caça às bruxas e vamos passar a "queimar vivos" quem não for como nós.

O mito da atualidade se chama "Ciência". É o "Deus" de muitas igrejas. Ciências políticas, médicas, psicológicas, etc... O que a maioria das pessoas se esquece é que a ciência é feita pelos HOMENS (imperfeitos) e que a grande maioria das verdades que a ciência prega hoje, serão grandes absurdos amanhã. Uma das principais características da ciência (muito bem lembrada por Jung, diga-se de passagem) é essa: ela não está pronta, terminada.

Jung lembrava que sua teoria não estava acabada. Ele tinha apenas iniciado um caminho que é sem fim.

Desejo a todos os radicais mais flexibilidade. A todos os cheios de certezas, muitas dúvidas. Aos de esquerda, mais direita e aos de direita, mais esquerda.

E assim teremos um Feliz 2015 com mais paz, amor e gentileza nas mídias sociais e no mundo.
Podemos pensar diferente e nos relacionar sem "Affffffffeeeeeeeeeeee". E com muito respeito.
Beijão!
Renata






quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

É Proibido Chorar!

É proibido chorar.
Uma coisa muito interessante, frequentemente quando alguém está chorando eu escuto: "Não chora vai.... não fica assim... Promete que não vai mais chorar?"

Afinal, porque as pessoas acham que chorar é ruim?...

O choro expressa aquilo que as palavras não conseguem. Choramos de dor, de tristeza, mas também de alegria e de emoção. Choramos para desabafar, para relaxar, para aliviar. Tem coisas que só as lágrimas são capazes de expressar. Mas parece que o choro é visto como algo terrível, algo que deve ser evitado a todo custo.

Já pensou se você fosse proibido de chorar?... 

Por que não podemos tolerar que o outro se expresse. Temos que fazê-lo parar.

No caso dos bebês vivemos algo semelhante. E pior, usamos a chupeta, o peito, a mamadeira como esparadrapo das emoções. Infelizmente isso acaba forçando a associação: desconforto = comida, estresse = comida, emoção = comida, alegria = comida, confusão = comida e por aí vai... 


É irritante, mobiliza, é difícil, eu sei... Mas somos nós, pais, que precisamos gradativamente ir ensinando aos nossos filhos que comida não é resposta para tudo na vida. Que podemos desenvolver resiliência, força e habilidade para lidar com as complexidades da vida. Esse é o lento e gradativo caminho para a independência. 


Ah!... E fase oral não é sinônimo de passar p dia/noite inteiros mamando. Assim como na fase anal, etc... Fase oral porque a criança explora o mundo através da boca. 


E o mais importante: choro de frustração é diferente de choro de abandono. Frustração ok, faz parte da vida. Abandono esse sim é nocivo.


Veja esse vídeo do bebê chorando quando se emociona ao ouvir a mãe cantando:


https://www.youtube.com/watch?v=QhboZGNqOx4

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Preocupação ou obsessão? Mães e pais que se preocupam demais

Orgânicos. Como.
Escola. Só depois dos 3 anos.
Açúcar. Proibido.
Farinhas? Integrais.
Soja. Não trangênica. Aliás, nada trangênico, claro.
Comercial de TV. Ou até mesmo TV. Proibido.
Desenho animado. Só se for totalmente politicamente correto. Tom e Jerry e Pica pau, nem pensar.
Protetor solar? Dá câncer.
Cera alimentícia na maçã? Socorro.
Vacinas? De jeito nenhum. Ou nenhuma.
Celular? Só para controlar os filhos ou falar o essencial. Também dá câncer.
Babá? Só a eletrõnica. Não vou tercerizar meus filhos.
Amamentação. Obrigatória. 2 anos é o mínimo. Em livre demanda. E se você não puder ou não quiser amamentar, seu filho é um coitado e será lesado para o resto da eternidade. E vamos apedrejar a indústria do mal que faz leite artificial.

Outro dia conversava com uma pessoa que me falou:

"- Não consigo trabalhar. E sei por quê. Nasci de cesáriana.Não sei fazer esforço. Não tem jeito, é irreversível. Se minha mãe tivesse me parido de outra forma eu não teria dificuldade para ser produtiva."

Quase não acreditei. Eu nasci de cesariana e sou produtiva. O que é isso???

Existe uma diferença muito grande entre buscar as opções que acreditamos serem as melhores para a nossa vida e se tornar obsecada por um ideal impossível.

E como saber se eu só quero o melhor ou se eu estou doente?

A diferença é a flexibilidade. Claro que os orgânicos são melhores e eu também procuro comer sempre orgânicos. Mas eu não morro de ódio da cera na maçã. Não vou deixar de ir a um restaurante porque não é tudo orgânico. Se no mercado não tiver a opção super saudável, eu levo a outra e ninguém vai morrer por causa disso.

A impressão que tenho é que os aspectos obsessivos das pessoas, agora se expressam de outra forma. Antes elas não podiam pisar no "quadrado preto, só no branco", ou tinha que lavar as mãos BEM lavadas para evitar doenças. Agora mudou. O "mal" está na desenho da Peppa, na cera da maçã ou em qualquer imperfeição.

E eu pergunto. Qual o problema de ser imperfeito? Qual o problema do pai da Peppa ser meio bobo? Não existem pais meio bobos por ai?... Todo mundo tem que ser perfeito? O que é isso minha gente?...

Essa busca pela perfeição esconde uma obsessão pelos filhos. Um traço obsessivo que agora é alimentado não pela "industria do mal" mas pela "industria do bem" que também precisa de lucro para sobreviver e que coloca um monte de medos na cabeça das pessoas para gerar consumo.

Quando eu vi aquela mãe revoltada com a cera da maçã, logo pensei que iriam lançar a maçã orgânica sem cera alimentícia. E o vídeo com ela dizendo "eu não dou isso para minha filha" dispararia o motor da culpa das mães que não podem dar algo tão ruim, e que nem sabem que a tal da cera nem faz mal.

Não, não estou fazendo propaganda de nada. Minha intenção é dizer que por trás de tanta preocupação existe sim um traço obsessivo importante e que não pode ser menosprezado.

Uma coisa é se preocupar, buscar o melhor, questionar. Super saudável. Outra coisa é levar essa preocupação a níveis patológicos onde viver começa a ficar muito caro e complicado.

Pense nisso.

Minha avó viveu 96 anos. E nem sonhava com todas essas variaveis. Apesar de todos os poréns, a humanidade vive cada vez mais. Podemos e devemos buscar o melhor, sempre. Mas sem paranóia.

Um abraço com um pouquinho (não muito) de agrotóxico.
Rena
ta






domingo, 7 de setembro de 2014

Como saber se meu filho é mimado?

Todos os dias eu escuto frases com a palavra "mimado". Fulaninho ficou mimado, a filha da vizinha é mimada, o caçula é sempre mimado e por ai vai...

Mas como saber se nossos filhos estão sendo educados da melhor maneira possível? Sim, possível, pois perfeito é D´us e no mundo dos mortais nós erramos.

Em primeiro lugar quero deixar clara a diferença entre ser mimado e ser amado. Ser mimado tem a ver com a busca da realização de todos os desejos da criança. Ser amado é um sentimento que antes de tudo precisa ser percebido pelo outro. Eu sinto o amor.

Assim eu posso ser mimado e pouco amado, por exemplo.

O problema começa ai. Muitas pessoas acreditam que amar é sinônimo da realização de todos os desejos da pessoa amada. Só que os pais, além de amar, precisam educar, por amor.

A criança que tem todos os seus desejos atendidos, (e claro que não estou falando de um bebê recém nascido, eu me refiro a crianças maiores) não aprende a tolerar frustrações. Não aprende a batalhar suas conquistas. Acha que o mundo está ali para servi-la. A criança mimada fica brava demais quando não é atendida e não cria soluções criativas para encarar as adversidades. Ela acha que os outros tem que resolver seus problemas e não ela por si só.

Quando damos a chance da criança "se virar" sozinha, seja para subir em um brinquedo no parque, seja para solucionar um problema de matemática, seja para aprender a esperar sua vez de brincar ou jogar, estamos gradativamente expondo ela a situações onde ela usa recursos emocionais para lidar com suas frustrações. Se conseguimos expor a criança a doses suaves de frutração, ela naturalmente vai entendendo que o mundo não existe apenas para servi-la.

Porém, se eu realizo todos os desejos do meu filho, se eu não dou a chance dele se virar sozinho e ter suas conquistas, de aprender a lidar com seus erros, se eu não ensino a ele que suas atitudes tem consequências, eu crio uma realidade ilusória, um mundo que não existe. Só que o mundo está ai e não é feito só de pessoas dispostas a "mimar" nossos filhos. Uma hora eles vão ter que se virar.

E ai?...

E ai que cada dia é mais comum eu encontrar pessoas deprimidas, revoltadas, inadequadas, com uma grande dificuldade para encontrar um lugar na sociedade, se encaixar em um emprego ou atividade que exige disciplina, porque não entendem que tem que se esforçar, que precisam seguir regras e que o mundo não está disposto a ser "super compreensivo" nem a "suprir todas as suas necessidades" só porque precisam ou querem muito. 

O resultado é que essas pessoas vão começar a se frustrar de verdade na vida adulta e isso será muito doloroso. Nós pais não somos eternos.Não vamos conseguir suprir todas as necessidades de nossos filhos para sempre. Uma hora eles vão ter que se virar, vão ter que conquistar seu dinheiro sozinhos, muitas vezes formar uma família e transmitir a educação que receberam para nossos netos, ainda que melhorada.

Desta forma, um dos maiores presentes que podemos dar para nossos filhos é a capacidade de se virarem sozinhos. De ter resiliência, de saber cair e levantar, pois faz parte da vida. A criança mimada não consegue fazer esse movimento, não consegue se levantar sozinha, não consegue usar a criatividade para superar obstáculos e dar conta das derrotas inerentes a vida de todo mundo. Ela chora, esperneia e espera sempre que o OUTRO resolva seus problemas, sua dor. Ela é dependente e qualquer contrariedade a faz sentir desamparada e insegura. Ela não teve chance de aprender seus próprios recursos e que "tudo bem cair", a gente levanta.

Se você quer que seu filho seja um adulto capaz de viver bem em sociedade, não mime seu filho. Dar amor e mimar são duas coisas completamente diferentes. Ame, abrace, beije, faça massagem , carinho, lembre se sempre se reforçar e valorizar suas conquistas, de elogiar seus esforços. Mas dê também a chance dele se levantar  e se virar sozinho. Diga "não" quando for necessário, mostre os limites, seja firme (sem ser agressivo) e ensine a ele que não tem problema errar ou perder, é assim mesmo, faz parte da vida.

A confiança que você transmite ao seu filho de que ele é capaz e que você acredita que ele vai chegar lá, com as próprias pernas, que as quedas fazem parte, os erros fazem parte, mas o importante é saber jogar as regras do jogo e se esforçar, é um grande presente, uma enorme prova de amor que seu filho vai levar e usar por toda a vida.

Não realize todos os desejos da criança. Deixe ela se esforçar para plantar e colher os frutos das suas conquistas, acertos e erros. Amanhã ela vai te agradecer e não vai sofrer tanto quando o chefe recusar um aumento de salário ou quando a(o) namorada(o) lhe "der um fora".

"Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima"

Beijos sem muito mimo.
Renata

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Como educar sem bater. Posso dizer "não"?

Sempre achei que extremos são perigosos e na educação penso a mesma coisa.

Dá para educar sem bater? Dá sim. Bater é totalmente dispensável. È possível educar sem dar nem mesmo uma palmada.

E educar sem dizer "não"? É possível? Eu particularmente não acredito nisso.

A educação é um processo contínuo que exige muita paciência. Educar é de fato repetir. Repetir inúmeras vezes até que que a criança consiga entender, por exemplo , que precisa escovar os dentes, dar a descarga, tomar banho, fazer a lição de casa.

Mas além de repetir, o "não" tem um papel muito importante.

Quando dizemos "não" para alguns comportamentos de nossos filhos, ensinamos a eles que existem momentos em que podemos e devemos dizer esta palavra. Seja para nos proteger, seja para nos impor, seja para deixar a preguiça de lado (não vou brincar, vou estudar, por exemplo).

Nossa sociedade é feita de regras. Não podemos matar, roubar, ferir. No caso de crianças, não podemos pegar o brinquedo do amigo enquanto ele estiver brincando. Não podemos morder, nem empurrar. No caso dos adolescentes as coisas começam a ficar um pouco mais complexas. Não devemos beber demais, nem fazer sexo sem camisinha.

Lembro me bem da minha filha mais nova quando ela queria colocar o dedo na tomada. A casa é segura e não é possível que ela coloque. Mesmo assim, sempre achei importante sinalizar a ela que aquilo é perigoso, mesmo que ela ficasse muito brava comigo. Da mesma forma, não pode colocar milho no ouvido do cachorro. Mesmo que isso pareça super interessante.

Há momentos em que conseguimos distrair a criança com outra atividade e mudar o foco. Mas existem aqueles momentos em que a criança insiste em uma ação, mesmo sabendo que é errada, mesmo sabendo que vai trazer danos (como no caso do cachorro) E ai? O que fazer?...

Já escutei muito que colocar a criança de "castigo" é um crime contra a humanidade. Eu discordo.

A palavra "castigo" trás mesmo um sentido pejorativo, talvez seja necessário criar alguma outra palavra que possa caracterizar o ato de parar uma ação e refletir.

Atendi um casal que não dizia "não" para o filho de 2 anos e meio. Achava que isso iria traumatizá-lo. O resultado disso, era um menino muito difícil. Ele gostava de jogar as coisas pela janela. Qualquer coisa, desde controle remoto da TV, até alimentos. O problema é que ele morava em um edifício e a qualquer momento as coisas que ele arremessava poderiam ferir gravemente alguém. O síndico do prédio já havia advertido e os pais já tinham explicado para a criança que aquilo era feio e que poderia machucar muito uma pessoa que estivesse passando. Mas o menino continuava a arremessar os pertences da família pela janela. Ele de fato queria um limite.

Minha sugestão foi que tirassem os objetos da mão dele e que ele fosse privado de brincar com o que tentava arremessar. Desta forma, toda vez que ele ameaçasse jogar objetos pela janela, a brincadeira teria fim. Ele teria que parar o que estivesse fazendo e ficar de "castigo" até entender que aquilo era ruim e perigoso para outras pessoas. Além do prejuízo que trazia para a família que havia perdido muitos itens da casa por causa do comportamento do filho.

Assim foi feito. O menino ficou muito bravo. Não sabia o que era frustração. Se jogou no chão, gritou, e chegou até a colocar a mãozinha na garganta para provocar o vômito. Os pais ficaram preocupados. Acharam que ele queria dizer alguma coisa, que precisavam acolher aquela dor.

Acolheram, deram colo, se mostraram compreensivos. Coitadinho, é apenas uma criança. O menino se acalmou, se abraçaram e assim que parou de chorar o menininho levantou-se e foi direto para a janela jogar mais uma bolinha.

Colocar limites é essencial. Erik Neumann já dizia: "Os limites são tão importantes para o desenvolvimento sadio quanto o amor". Não tenha medo de colocar limites em seus filhos. Mesmo que eles fiquem muito, muito bravos com o "não". Esse "não" será introjetado e amanhã ele vai conseguir dizer "não" para muitas coisas como drogas, promiscuidade, preguiça e delinquência. Se seu filho não escutar essa palavra, ele não saberá dizer ela.

Ficar de "castigo" é uma forma de mostrar a criança que as coisas tem consequências. E tem mesmo. Experimente chegar atrasado no dia do vestibular. Ou não cumprir horários/prazos no seu novo emprego. A vida não é um playground. Existem regras que precisam ser cumpridas. Se gradativamente vamos ensinando nossos filhos que existem consequências, que existe troca e que ele precisa fazer a parte dele na família, na escola e mais tarde na sociedade, vamos aos pouco construindo o caráter, formando um cidadão.

Mas ao contrário, se nunca há consequência nenhuma, nenhum tipo de "castigo"(impedimento ou pausa para a reflexão) para os atos errados, se eu posso fazer tudo o que eu quero que não há consequências negativas, meus pais vão continuar me dando tudo o que estiver ao alcance deles, indiscriminadamente, não preciso me esforçar para nada, eu crio a ilusão de um mundo fantasioso onde a ação e reação não existem.

É claro que esse é um aprendizado gradativo. É claro que teremos que repetir infinitas vezes frases como "você escovou os dentes?" ou "fez a lição de casa?". Isso faz parte do processo da educação. Mas continuar premiando com presentes/passeios numa vida normal uma criança que não colabora, que não faz sua parte, não arruma seu quarto, não cumpre com suas obrigações de estudante, não ajuda nas tarefas domésticas, é o mesmo que dizer à ela que esforço é uma bobagem.

Disciplina e força de vontade são a chave para se alcançar qualquer objetivo. E para se ter disciplina e força de vontade, temos que aprender a dizer "NÃO" para desejos momentâneos, temos que abrir mão, fazer escolhas e muitas vezes sacrificar prazeres. Pergunte para qualquer pessoa bem sucedida quantas vezes na vida ela precisou se esforçar para chegar lá.

Disciplina e força de vontade se aprende pelo exemplo, mas também quando entendemos que na vida há consequências boas e ruins. Depende de nosso comportamento e de nossas escolhas.

Quando minhas filhas insistem em uma ação errada, nociva para elas ou para outros, elas ficam de "castigo" sim. E dessa forma elas aprendem que eu e o mundo não toleramos certos comportamentos. Elas aprendem a serem tolerantes a frustração e aprendem resiliência. Isso não diminui o amor que eu sinto por elas. Na verdade essa é uma grande prova de amor, pois educar e dizer "não" é muito mais difícil do que fazer todas as vontades das crianças.

Um abraço sem medo de educar,
Renata

Foto: http://www.rioeduca.net/blogViews.php?bid=18&id=3289



terça-feira, 26 de agosto de 2014

Os papeis do homem e da mulher na família atual.

Quando eu trabalho com o sono dos bebês, sempre peço para o pai comparecer a consulta.

Muitas mães acham estranho e perguntam, -"Para quê?"

Eu explico.

Há 60 anos atrás, os filhos eram responsabilidade única e exclusivamente das mulheres. Aos homens era destinado o papel de provedor e as crianças eram para ele, parte de um conjunto chamado família com quem ele se relacionava superficialmente no fim de um dia de trabalho. Quando muito, a mãe pedia socorro para o pai ajudar em algum problema mais sério que ela não havia conseguido resolver sozinha durante o dia.

A casa era igualmente cuidada pela mulher. Eletrodomésticos como máquina de lavar louça eram caros e começaram a ficar mais populares no fim da década de 80. Micro ondas, freezer, aspiradores de pó com funções diversas e mais ergonîmicos ( já temos até o aspirador robô), secadora de roupas e mesmo lavadora de roupas mais modernas e com funções específicas, tudo isso começou a sair do imaginário coletivo e do desenho dos Jetsons para o dia a dia das familias brasileiras há pouco tempo.

Isso passou a dar mais autonomia para as mulheres. Por outro lado, a figura da empregada doméstica, muito comum no Brasil até hoje, começou a ficar mais rara. As novas leis trabalhistas e os altos salários exigidos pelas profissionais, aos poucos começaram a mudar a cara do cenário da família brasileira.

Com mais recursos tecnológicos e menos mão de obra doméstica, as mulheres começam a se perguntar: Se eu posso trabalhar fora e cuidar da casa ao mesmo tempo, por que meu marido não pode colaborar?

Sim. Essa palavra é muito importante: colaborar.

Eu sempre escuto as mulheres dizerem que seus maridos as ajudam ou não. Essa palavra "ajuda" já parte do princípio de que a tarefa é da mulher e o homem pode ou não ajudá-la. Já a palavra "colaborar", subintende que os cuidados com a casa é responsabilidade de ambos. Assim como a criação e educação dos filhos.

Quando o marido colabora e participa dos cuidados da casa e dos filhos, forma-se uma parceria entre o casal. Ninguém fica sobrecarregado. Os eletrodomésticos auxiliam e enquanto um dá banho nas crianças, o outro pode tirar a louça da máquina. O casal se une, ninguém fica cansado demais e sobra tempo e energia um para o outro.

O problema costuma acontecer quando os cuidados com os filhos e a casa ficam a cargo apenas de um dos cônjuges. Neste caso, pode haver um distanciamento entre os membros do casal que acaba não compartilhando da mesma realidade. Os problemas não são os mesmos, e muitas vezes ocorre uma alienação com relação as dificuldades que o outro vive no dia a dia.

Assim, se o bebê acorda a noite isso é problema em geral da mãe. Ela que resolva. O pai parte do princípio de que a mãe "não faz mais nada" além de cuidar dos filhos e da casa (como se isso fosse pouco), ele tem que acordar cedo, então ela que se vire. Muitas mulheres se veem sozinhas, sobrecarregadas, incompreendidas em suas dificuldades e acabam se distanciando dos maridos.

O primeiro impacto é na vida sexual. Cansadas e se sentindo sozinhas, a libido cai. Namorar com o marido no meio das fraldas, da Peppa, do leite, do choro e de tudo ao mesmo tempo, não é fácil.

Na minha visão, esse modelo de família onde o marido trabalha fora de casa e a mulher dentro de casa, precisa ser revisto. As mulheres também tem o direito a realização profissional e seus sonhos não necessariamente se resumem apenas a maternidade. Estudar e ter independência financeira é cada vez um desejo mais comum entre as mulheres. E totalmente compatível com a maternidade.

Paralelamente, também percebo que muitos homens começam a descobrir a delícia que é estar com os filhos. Participar da rotina, cuidar, alimentar, passear, colocar para dormir, tudo isso pode e deve ser feito também pelo pai. Todos ganham. As crianças desfrutam desse vínculo tão importante, vivenciam outro modelo, se aproximam do masculino. O pai tem um encontro de amor com seus filhos, passa a os conhecer pessoalmente, através de sua visão própria e não apenas através do discurso da mãe. E a mãe ganha um parceiro que a liberta, que a compreende, que a apoia, que fala a mesma língua e experiencia sua realidade doméstica.

Da mesma maneira, se a mulher trabalha também fora de casa, ela consegue oxigenar suas ideias, tem outros assuntos além dos domésticos, compreende melhor as demandas profissionais do marido, compartilha de suas ambições e pode se unir a ele na busca por crescimento pessoal e profissional.

E as crianças? Ficarão abandonadas? Terceirizadas? Inseguras?

De jeito nenhum. Muito pelo contrário. Elas serão cuidadas pelo casal. Podem sim ir a escola, socializar, conviver com outros adultos e crianças, desenvolver suas habilidades intelectuais para depois desfrutar de ambos os pais. Se a família optar por não colocar as crianças na escola, o tempo destinado aos cuidados com os filhos precisa ser pensado de forma que ambos, pai e mãe, tenham responsabilidade com relação a esses cuidados, ainda que eventualmente, ou por um período de tempo,
os ganhos financeiros sejam menores.

Vale a pena! Nossos filhos são o nosso maior patrimônio!
Beijos de uma mãe que trabalhar dentro e fora de casa!
www.terapeuta.psc.br

foto : http://www.kidsvitrine.com.br/2014/08/cresce-numero-de-pais-que-ficam-em-casa.html

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O discurso autoritário

E então as pessoas me perguntam:

"Você é a favor do quê? E contra o quê?"

É exatamente esse o meu ponto.

Eu pessoalmente, estou mais para natureba, ambientalista, ecologista com fortes tendências vegetarianas. Como orgânico e me preocupo bastante com a alimentação.

Mas não imponho minha verdade a ninguém. Não sou a favor de nada a todo custo. Sou contra o discurso autoritário.

Aquele discurso mais ou menos assim: "Quem não está comigo, está contra mim."

E não me refiro apenas a um assunto. Não gosto de autoritarismo em nenhum campo. Nem na política, nem na saúde, nem no parto (nem no prato), nem na escola, nem no casamento, nem na sexualidade, nem na afetividade, nem em lugar nenhum do universo. Amo a democracia, amo a reflexão e o respeito às diferenças. Amo o diálogo. Ficar reafirmando um discurso (qualquer que seja) para mim é uma atitude pouco produtiva.

O que eu percebi, e por isso resolvi escrever sobre o assunto, é que muitas mães chegavam ao consultório cheias de culpa, algumas doentes de sono, com casamentos em crise, deprimidas, por quererem corresponder a um ideal qualquer. Percebi que existia na internet uma corrente de mulheres com tempo para escrever e defender suas ideias, coisas que nem todas as mulheres conseguem fazer, principalmente as que precisam ou optaram por trabalhar dentro ou fora de casa, ou ainda foram atrás de sua realização profissional, conciliando carreira com maternidade.

Essas mulheres estavam sem voz. E eu resolvi dar voz à elas.

Imediatamente comecei a ser julgada, exatamente como essas mães são. Pessoas que nunca conversaram comigo, falando (desculpem o termo) um monte de abobrinhas. Chega a ser um pouco (ou muito) engraçado, com todo o respeito. Até terapia me mandaram fazer! Olha o grau do absurdo, eu faço terapia há mais de 22 anos. As pessoas não tem a menor ideia do que soltam na internet e falam do outro, que se quer conhecem, não sabem absolutamente nada a respeito, com uma propriedade e arrogância que chega a dar medo.

Não é a toa que as mães que me procuram chegam confusas e atordoadas por esse discurso autoritário.

Se você me perguntar, eu vou te dizer que não sou contra o parto natural, nem normal, nem a cesáriana. Sou contra a falta de respeito a escolha da mulher seja ela qual for. Não acho que uma pessoa que escolheu uma cesariana é menos informada que a que escolheu um parto  normal. Isso é uma falácia. E também não acho que a pessoa que fez o parto natural regrediu aos tempos das cavernas. Ambas tem direito de viver sua experiência da maneira que acreditam ou que se identificam.

Apesar de algumas mulheres jurarem de pés juntos que respeitam as escolhas das outras, basta alguém dizer que quer "dormir", algo simples como isso, que o bombardeio começa. E não precisa ir longe. Leia os comentários dos blogs e você verá o grau da intolerância, da arrogância e da agressividade.

Acho que o movimento do parto humanizado, por exemplo, tem uma importância muito grande para combater a ditadura da cesária. Mas tem que tomar cuidado para não virar ele mesmo outra ditadura.

"A pior ditadura não é a que aprisiona o homem pela força, mas sim pela fraqueza, fazendo o refém das próprias necessidades" Julia Lícia

"Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim" Millor Fernandes

"A grande força da democracia é confesar-se falível de imperfeição e impureza, o que não acontece com os sistemas totalitários, que se auto promovem em perfeitos e oniscientes para que sejam irresponsáveis e onipotentes" Ulisses Guimarães

Para finalizar, uma frase que resume bem o que penso, não sei de quem é:


E viva a liberdade! Abaixo a ditadura!
Beijos com muita imperfeição e humanidade
Renata


Mãe que é mãe não dorme???

É verdade que mãe que é mãe não pode dormir? É verdade que para o meu bebê se sentir seguro eu preciso ficar com ele grudado no corpo dia e noite, 24 horas por dia 365 dias por ano por 2 anos ou mais? É verdade que se eu não fizer cama compartilhada meu bebê será uma criança menos feliz, menos amada?

Muita calma nessa hora.
Há uma grande confusão, para não dizer uma enorme confusão com relação a esse assunto.

Pessoal adora a Organização Mundial da Saúde, então vamos falar dela.

Primeiramente é muito importante entender que, segundo a OMS e vários autores que estudaram o desenvolvimento infantil, existe uma grande diferença do ponto de vista psicológico entre um bebê recém nascido, um bebê de 3 meses, um bebê de 6 meses, de 1 ano, 1 ano e meio e dois anos. Estes são marcos do desenvolvimento infantil, ou seja, os recursos psicológicos de um bebê recém nascido não são os mesmos de um bebê de 6 meses, que por sua vez vão mudando conforme ocorre o crescimento.

A amamentação é indicada até 2 anos ou mais, porém a OMS recomenda livre demanda para recém nascido e não para bebês de 2 anos ou mais. O desmame deve ser iniciado aos 6 meses de idade com o início da alimentação sólida. Iniciado não quer dizer que a mãe deve parar de amamentar. Significa que vamos começar a introduzir almoço e depois o jantar. Ou seja, vamos começar a estipular horários para as refeições.

Desta maneira, antes dos 6 meses é absolutamente normal o bebê acordar para mamar. Depois que a alimentação sólida é introduzida e o aporte calórico do dia passa a ser fornecido durantes as refeições, é importante que o bebê possa e consiga dormir durante a noite. É importante para o bebê e para a mãe. Privar-se de sono em nome da livre-demanda depois que o bebê tem mais de 6 meses não é saudável e trás consequências que podem variar de irritação e agressividade, até agitação e hiper atividade e em alguns casos depressão. Se a privação de sono perdurar, a consequência pode até levar a psicose.

A mesma OMS tão citada pelas mães, que recomenda a amamentação (e eu também sou super a favor da amamentação), NÃO recomenda a cama compartilhada.

E quais as diferenças psicológicas entre os bebês nas diversas fases da vida?

O recém-nascido precisa ser alimentado em livre demanda, precisa ficar grudadinho nos pais. A mãe de fato é um peito. O bebê enxerga pouco e por isso o bico do seio fica maior e mais escuro, justamente para que ele seja capaz de encontrá-lo. Mãe e filho ainda estão misturados. A saída do útero ainda é muito recente e precisamos dar suporte para que o bebê entenda que aqui fora o ambiente é favorável. As necessidades do bebê, nesta fase, precisam ser prontamente atendidas, para que o bebê forme uma base segura no mundo. Winnicott chamou essa fase de "fase autistica normal".

Entre 2 e 5 meses, entramos na fase conhecida como "simbiótica", ou seja, o bebê ainda não consegue ter claro que ele e sua mãe são duas pessoas diferentes. Amamentar (ou dar a mamadeira se for o caso) fazendo contato visual, sorrir para o bebê, a maneira como o seguramos, como fornecemos amor e afeto, a importância do toque e do contato pele/pele, tudo isso vai propiciando ao bebê entender que ele e a mãe são dois seres distintos. Aos 5 meses a presença indispensável do pai (ou de quem faça o papel do pai) fará o corte do "segundo cordão umbilical". O pai precisa começar a atuar no sentido de romper a simbiose mãe e filho e permitir que a criança que se ligue a outra realidade psiquica além da mãe. Aqui começa a nascer uma identidade nova, um processo longo e gradual que precisa ser estimulado pelos pais.

Aos 6 meses ocorre uma grande mudança. A criança aprende a sentar e passa a ver o mundo de outro ângulo. Ela não apenas mama, mas começa a se alimentar e a ver a mãe de outra forma, ela já começa a perceber que a mãe não é apenas um peito, mas um ser inteiro e que vai e volta. Essa ideia de que a mãe existe, mesmo que não esteja na frente dela é subjetiva e precisa ser construida, vivenciada, para que a criança consiga se reconhecer como individuo único e separado. A mãe que permanece simbiótica após o período normal, dificulta esse entendimento de que ela e a criança são dois seres distintos.

Se o bebê vive grudado na mãe 24 horas por dia, depois da fase simbiótica, como eu já conheci várias vezes, casos de mães que não conseguiam se separar dos filhos nem para ir ao banheiro, se ele não percebe que ela e ele (bebê) são pessoas diferentes, se não há essa diferenciação, eu e o mundo somos a mesma coisa. Aqui está a semente das psicoses.

É na falta, na ausência, que o bebê maior consegue perceber essa diferenciação. Por isso ela é tão importante. 

Óbvio que essa separação não precisa ser longa demais a ponto de criar uma angústia insuportável. Ela precisa acontecer de forma gradativa e única em cada caso, mas precisa ocorrer.

Daí eu escuto que não... Que se assim fosse, todos os índios seriam psicóticos. Então eu pergunto, de onde tiraram a ideia que a índia passa o dia inteiro deitada na rede tomando água de coco amamentando por 2 anos ou mais sem fazer mais nada da vida ?... A índia sobe na árvore para "colher manga" e o bebê tem que esperar ela voltar, os índiozinhos muitas vezes são cuidados e amamentados por mais de uma índia ou por grupos de índias, enquanto outras vão plantar e colher. Sem falar que as organizações sociais variam enormente de tribo para tribo. Inclusive algumas tribos tem rituais muito cruéis e agressivos.

Há relatos que descrevem que os indiozinhos quando começam a engatinhar, se AFASTAM e VOLTAM quando querem, sem que haja preocupação com relação a isso. Ainda que existam tribos onde a mulher pare as demais atividades para se dedicar apenas a amamentação, é muito importante lembrar que as índias vão dormir quando o sol se põe e acordam quando o sol nasce. Elas não ficam na internet até altas horas da madrugada, não assistem o Jô Soares ou outros programas de TV. Não vão ao cinema sábado a noite, nem saem para fazer happy hour com as amigas. Se elas não tem forças, ou não querem fazer sexo com seu parceiro, ele comunmente tem outras parceiras para suprir as necessidades deles. 

Então, se vamos viver como os índios, vamos adotar todo seus sistema e não apenas uma parte, como se fosse saudável submeter uma mulher que vive em uma cidade cheia de lâmpadas e espera o marido chegar a noite em casa para jantar e assistir tv, depois conversar e ir dormir por volta das 22hs (nessas a índia já está dormindo desde as 18:30hs) o mesmo esquema de uma mulher com hábitos completamente diferentes.

Sem falar na hérnia de disco, afinal a índia teve seu primeiro filho na adolescência quando seu corpo é super jovem e acostumado a atividade física diária. Assim, ela consegue carregar um bebê ou mais (ou uma cesta cheia de frutos) o dia inteiro nas costas, enquanto na nossa sociedade a mulher passa o dia inteiro sentada ou parada, vai estudar, trabalhar, usa o carro, salto alto, o elevador, a escada rolante e quando o bebê nasce muitas vezes já está com mais de 30 anos e uma vida bem mais sedentária que a da índia. E quer se cobrar um comportamento idêntico?... Muito cruel.

E as mães de gêmeos? Ou tri gêmeos?... Cada vez mais comum atualmente, todas teriam filhos problemáticos pois é humanamente impossível amamentar 3 bebês em livre demanda por 2 anos ou mais, sem delegar, sem ter a ajuda de alguém que não seja a mãe, "terceirizando" os cuidados com os bebês.

Eu sigo tudo aquilo que passei 3 anos estudando (e até hoje estudo) durante o meu mestrado em psicologia clínica. No ínicio da vida, até os 6 meses de idade, é mesmo muito importante respeitar a necessidade dos bebês de ficarem bem próximos da mãe. Eu incluo nessa conta o pai que, quando faz parte do processo, não deixa a mãe tão sobrecarregada e propicia ao bebê vivenciar outro tipo de vínculo que é simplesmente maravilhoso.

Quando a mãe abre espaço para o pai fazer esse vínculo, usar o sling, acalmar o bebê que quando chora não precisa apenas mamar, mas muitas vezes pode ser acalmado e acolhido de outras maneiras, mesmo na fase oral. Quando o bebê experiencia outra realidade psiquica além da mãe 24 hs, ele passa a entender que ele e a mãe são seres distintos.
Da mesma maneira, pequenas ausências ajudam o bebê a perceber que a mãe vai, mas volta, criando o que Bowlby e Mary Ainsworth  chamaram de apego seguro.

Ao contrário, se a mãe é muito ansiosa, excessivamente protetora, não confia na capacidade do bebê de conquistar gradativamente sua independência e não permite que o bebê se separe dela, nem para dormir, teremos o que Bowlby/ Ainsworth chamaram de apego ansioso.

Com 1 ano o bebê começa a andar, mudando novamente sua forma de se relacionar com o mundo. Ele já tolera afastamentos maiores e se é seguro, não se apavora quando a mãe sai de perto pois sabe que ela volta.

Com 1 ano e meio em geral o bebê começa a se comunicar com palavras e dá início a um processo onde gradativamente não vai mais precisar chorar quando quer expressar algo. Aos poucos ele poderá dizer o que quer.

Com dois anos o bebê tem mais noção de tempo e espaço. Já se espera que ele esteja ligado a outras figuras cuidadoras além da mãe, como o pai, os avós e/ou outras pessoas da família com quem o bebê esteja acostumado a estar.

Ou seja, durante toda a primeira infância, o processo de autonomia, independência e nascimento da identidade do bebê é gradual deve ser incentivado pelos pais. O bebê recém nascido não tem as mesmas necessidades de um bebê de 6 meses, que por sua vez tem necessidades diferentes de um bebê de 1 ano.

Pode parecer óbvio, mas vejo muitas mães cuidarem de bebês de 1 ano como se tivessem 1 mês.

O sono segue a mesma linha. O recém-nascido precisa receber cuidados diferentes do bebê de 6 meses. Seu relógio biológico é diferente e suas necessidades psiquicas também. É absolutamente normal acordar a noite para mamar.

Com 6 meses, o bebê já tem mais resiliência, mais recursos físicos e psiquicos e já começa a ser capaz de dormir por um número maior de horas, principalmente quando começa a comer bem durante o dia. Assim não é mais necessário amamentá-lo durante a noite. Mas a amamentação pode e deve ser mantida durante o dia.

Parar de amamentar durante a madrugada, na nossa sociedade onde existe energia elétrica, internet, cinema, televisão, tablet, monogamia e as mães não vivem como as índias, é muito importante para garantir a saúde física e psiquica tanto das mães que amamentam, como dos filhos que precisam ter uma mãe descansada e disposta para cuidar deles e/ou trabalhar no dia seguinte, seja dentro ou fora de casa.

Temos direito ao descanso.

Um grande abraço,
Renata
www.terapeuta.psc.br

Foto: http://souzasantos.com.br/more/a-importancia-de-dormir-bem/


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Guerra de Mães na Internet?... Quem é o dono da verdade?

Estava dando uma olhada nos blogs de mães que existem no Brasil e resolvi me pronunciar sobre isso.

Muito interessante. Existe uma verdadeira guerra de "verdades", uma competição entre as mães para dizer que tipo de mãe é o certo, que tipo de mãe é mais mãe, mais verdadeira, mais "natural", mais realizada, mais, mais, mais... Quem amamenta mais, quem se entrega mais, quem vive mais a maternidade, quem está mais próxima do ideal.

Que triste isso.

Imediatamente veio a pergunta, pra que tudo isso?

Linhas e linhas de relatos romanceados de experiências "ma-ra-vi-lho-sas" que carregam a mensagem de que a experiência descrita é a melhor, a mais certa, a ideal, a que deve ser seguida.

Seu bebê usa chupeta? Precisou de leite artificial? Nasceu de cesária? Então você não sabe nada. Você não leu, não se informou, não sabe o que é ser feliz, não ofereceu o melhor ao seu filho. E dá-lhe culpa!

Do outro lado mães defendendo o direito ao trabalho e a realização profissional, ou o direito a escolha de um parto cesário, ou a qualquer outra escolha que não seja a mais "natural" (entre aspas mesmo).

E quem está certo(a)? Ninguém. Ninguém mesmo. Que me desculpem as donas da verdade, mas verdade é única e exclusiva para cada ser humano. Seu marido pode ser ótimo para você e não para mim. Seu estilo de vida pode ser lindo para você e não para sua prima. Amamentar pode ser maravilhoso para algumas mulheres e muito complicado para outras.

E o mais incrível é a agressividade dos debates, como se não houvesse espaço para o diferente. E as amigas de cada "time" se unem para atacar quem pensa diferente delas. É como se fosse uma igreja da maternidade onde estarão "salvos" aqueles que rezam uma determinada bíblia. E só estes.

No meio dos desabafos e dos "sinta-se abraçada amiga", muitas mães deprimidas, culpadas demais, desamparadas por quererem corresponder a um modelo pré determinado.

E claro, o assunto sono sempre surge.

E eu queria saber em qual pesquisa está descrito que o bebê que dorme a noite toda sofreu "desmame noturno precoce".

Qualquer pediatra, natureba ou não, sabe que após os 6 meses, depois que o bebê já está se alimentando bem com os sólidos, ele já é capaz de dormir a noite, sem precisar mamar. Mesmo que ele mame no peito. Ora, tenho 2 filhas que mamaram quase 1 ano. A segunda ficou com amamentação exclusiva no peito por 7 meses por causa de alergia a proteína do leite e ambas NÃO precisaram mamar durante a madrugada. Recebo em meu consultório diariamente mães que desejam dormir a noite, que PRECISAM dormir a noite e nem por isso alguém deixou de amamentar. Inclusive prolongadamente.

O problema é que as mães confundem livre demanda com usar o peito para induzir o sono. E ai, se você deseja fazer isso, usar seu peito (ou mamadeira, ou qualquer outra coisa) para induzir o sono do seu filho por 2 anos ou mais, saiba que você é de uma classe social privilegiada que pode se dar ao luxo de dormir durante o dia enquanto muitas mulheres necessitam trabalhar para sobreviver. E que elas não são menos mães por isso. Muito menos egoístas. Por favor, não use esse discurso da amamentação para justificar a prática de induzir o sono do seu filho.

Sou mega a favor da amamentação. Para poder amamentar minha caçula ia e voltava São Paulo/Cotia de 2 em 2 horas. Mas sei que amamentar não é algo puramente biológico. Existem aspectos psicológicos muito importantes envolvidos nesse ato. Às vezes a mãe não quer ou não consegue amamentar seu filho, por milhares e diversas questões. Existem também os bebês adotados que
precisam ser amamentados com leite artificial. Nem sempre a traslactação é algo desejado ou possível.

E ai? Vamos queimar essas mulheres vivas? Vamos dizer que são umas coitadas, perversas, egoístas, menos mães, ignorantes, desinformadas e que perderam o melhor da festa? De jeito nenhum.

A palavra de ordem aqui é respeito. Respeito a escolha daquilo que é possível para cada mulher. Respeito a realidade de cada ser humano, seja ela financeira, emocional, física, social ou psíquica. Vivemos em uma democracia. As pessoas tem o direito a escolha. Não existe um único caminho para a saúde e felicidade. Isso é uma grande, enorme bobagem. Do ponto de vista da composição, o leite materno é mais saudável, fato. Mas o leite materno dado com raiva, com mágoa, ressentimento, por uma mulher contrariada e que não quer amamentar é pior que dar uma mamadeira com afeto e paz. A criança sente, percebe.

Meu recado para as mães de todo o mundo: Não comprem receitas prontas do que é certo ou errado. Informe-se e escolha. Faça você a sua história. Não há verdade absoluta. A única coisa absolutamente certa na vida é que um dia vamos morrer. Mesmo a ciência muda de tempos em tempos e axiomas caem, como o ovo que já foi o grande vilão das dietas e hoje não é mais.

Você é livre. Pratique aquilo que faz sentido para você. Se você estiver feliz, realizada, descansada e seus filhos puderem conviver com uma pessoa assim, é muito melhor do que querer corresponder a um ideal imaginário de perfeição que nada tem a ver conosco seres humanos.

Além disso, seria bem melhor se deixássemos as bandeiras de lado e pudéssemos trocar experiências, ideias, pensamentos. O debate é construtivo quando há troca, respeito.

Viva a democracia! Viva o direito de ser livremente!

Beijos para todas as mães imperfeitas como eu!



sábado, 12 de abril de 2014

Aspectos psicológicos e o sono dos bebês

Depois que lancei meu primeiro livro (o segundo está a caminho!), comecei a perceber um movimento muito interessante com relação ao assunto do sono dos bebês.

Eram mães, enfermeiras, psicólogas, médicos, pedagogas e uma gama enorme de profissionais interessados em trabalhar com o tema. Nos grupos da internet, acompanhava mães dando conselhos para outras mães com tanta propriedade que soavam mesmo especialistas no assunto.

Mas afinal? Quem está habilitado para trabalhar com esse tema?

O sono é assunto muito sério. Muito sério mesmo.

Para se ter uma ideia, um ser humano aguenta ficar mais tempo sem beber água e sem se alimentar do que sem dormir. Ficar sem dormir pode acarretar uma série de consequências, incluindo surtos psicóticos e psicopatologias associadas ou não.

Quando uma mãe me procura para resolver o problema de sono de seu filho, eu sei que esse é apenas o sintoma de algo muito mais profundo. Conseguir se separar durante a noite, durante o período em que mães e filhos mergulham em seus estados inconscientes é uma tarefa que exige recursos emocionais muitas vezes não disponíveis.

A insônia do lactente é uma resposta psicossomática a questões de relacionamento. Principalmente entre os pais e o bebê.

Isso exige do profissional que vai cuidar do assunto algo muito, muito importante: Conhecimento. E não me refiro a conhecimento básico, que se adquire em pouco tempo. Refiro-me a conhecimento que se adquire em uma universidade, em anos de estudo.

É mais ou menos como a medicina. Quando uma criança quebra o braço, eu posso providenciar um raio x, constatar a lesão e engessar o braço quebrado, esperando que o organismo faça o resto, simples, não?... Se eu consultar um ortopedista, provavelmente ele vai me dar exatamente essa instrução. Então para que procurar um médico se eu mesma posso engessar o braço da criança?

Porque apenas o médico sabe avaliar a gravidade da lesão, como o braço deve ser engessado, por quanto tempo, se é caso cirúrgico ou não.

Da mesma maneira, o psicólogo ou psiquiatra é aquele que está habilitado para avaliar os casos de insônia do lactante.

A insônia, ou dificuldade de iniciar e/ou manter o sono, pode ter inúmeras causas. Desde psicopatologias mais sérias, como autismos que variam em diversos graus, ou psicoses por parte da criança, até questões psicopatológicas dos pais, como bipolaridade, depressão, transtornos de ansiedade, dentre outros.

Não é como uma receita de bolo onde basta replicar. Mesmo as receitas de bolo quando seguidas a risca muitas vezes não dão certo. Sono e saúde andam de mãos dadas e o profissional que se propõe a trabalhar com isso tem uma responsabilidade enorme.

Ele precisa saber, por exemplo, a diferença entre um surto e um desabafo. Ele precisa saber a diferença entre tristeza e depressão. Entre excesso de sono e um problema na tireoide. Precisa saber que alguns bebês não dormem porque sofrem de angústias, de alergia alimentar, de refluxo (muitas vezes oculto) ou que na família está acontecendo uma crise como iminência de divórcio, simbiose mãe/filho, regressão de um dos pais, só para citar os mais comuns.

E onde a gente aprende tudo isso?

Na faculdade de psicologia. Não é em um curso de fim de semana. São 5 anos em período integral, onde aprendemos sobre anatomia, fisiologia, genética humana, psico farmacologia, psicopatologia, e muitas outras matérias além das várias teorias psicológicas e o manejo das situações. Fazemos estágio com supervisão, provas, trabalhos, seminários e vários estudos que nos habilitam a trabalhar com o ser humano.

No meu caso especificamente, ainda fiz pós graduação e depois um mestrado em psicologia clínica focado no sono dos bebês.

Ora, se fosse algo tão simples, para que estudar tanto?

Eu fico pensando, se uma criança tem febre, eu posso conversar com minha vizinha que tem vários filhos e ela vai dizer o que fazer. É virose. Dê Novalgina intercalando com Tylenol de 4 em 4 horas. Pronto! Se piorar muito, e der tempo, leve seu filho a um médico ou pronto socorro, mas só se for MUITO grave, se não ele não precisa de médico, basta alguém bem intencionado que já viveu muitas situações como essa e leu bastante sobre o assunto.

Parece absurdo? Febre pode ser qualquer coisa. Febre baixa 1 ou 2 dias, pode (ou não) ser nada e se resolver sozinha (ou não). Se a criança tem febre, isso é o SINTOMA de que alguma coisa não vai bem. E só um médico pode avaliar.

Da mesma forma a insônia do lactante também é um SINTOMA. Se a criança está sendo avaliada por um pediatra que descartou problemas físicos, é hora de encaminhar para um psicólogo ou psiquiatra devidamente preparado que vai trabalhar as causas psicológicas dos pais e do bebê.

Por tanto fica aqui essa reflexão. Se você procura um pediatra para cuidar do seu filho quando ele tem uma febre, procure um psicólogo ou psiquiatra devidamente habilitado para cuidar do seu filho quando ele não dorme bem.

Eu não procuro uma costureira para fazer a sutura de um ferimento na minha pele. Por mais parecido que seja o trabalho.
Fonte: http://www.tirinhasdoze.com/2010/04/psiquiatra-n-672.html

Um abraço, e boas reflexões,
Renata