quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Preocupação ou obsessão? Mães e pais que se preocupam demais

Orgânicos. Como.
Escola. Só depois dos 3 anos.
Açúcar. Proibido.
Farinhas? Integrais.
Soja. Não trangênica. Aliás, nada trangênico, claro.
Comercial de TV. Ou até mesmo TV. Proibido.
Desenho animado. Só se for totalmente politicamente correto. Tom e Jerry e Pica pau, nem pensar.
Protetor solar? Dá câncer.
Cera alimentícia na maçã? Socorro.
Vacinas? De jeito nenhum. Ou nenhuma.
Celular? Só para controlar os filhos ou falar o essencial. Também dá câncer.
Babá? Só a eletrõnica. Não vou tercerizar meus filhos.
Amamentação. Obrigatória. 2 anos é o mínimo. Em livre demanda. E se você não puder ou não quiser amamentar, seu filho é um coitado e será lesado para o resto da eternidade. E vamos apedrejar a indústria do mal que faz leite artificial.

Outro dia conversava com uma pessoa que me falou:

"- Não consigo trabalhar. E sei por quê. Nasci de cesáriana.Não sei fazer esforço. Não tem jeito, é irreversível. Se minha mãe tivesse me parido de outra forma eu não teria dificuldade para ser produtiva."

Quase não acreditei. Eu nasci de cesariana e sou produtiva. O que é isso???

Existe uma diferença muito grande entre buscar as opções que acreditamos serem as melhores para a nossa vida e se tornar obsecada por um ideal impossível.

E como saber se eu só quero o melhor ou se eu estou doente?

A diferença é a flexibilidade. Claro que os orgânicos são melhores e eu também procuro comer sempre orgânicos. Mas eu não morro de ódio da cera na maçã. Não vou deixar de ir a um restaurante porque não é tudo orgânico. Se no mercado não tiver a opção super saudável, eu levo a outra e ninguém vai morrer por causa disso.

A impressão que tenho é que os aspectos obsessivos das pessoas, agora se expressam de outra forma. Antes elas não podiam pisar no "quadrado preto, só no branco", ou tinha que lavar as mãos BEM lavadas para evitar doenças. Agora mudou. O "mal" está na desenho da Peppa, na cera da maçã ou em qualquer imperfeição.

E eu pergunto. Qual o problema de ser imperfeito? Qual o problema do pai da Peppa ser meio bobo? Não existem pais meio bobos por ai?... Todo mundo tem que ser perfeito? O que é isso minha gente?...

Essa busca pela perfeição esconde uma obsessão pelos filhos. Um traço obsessivo que agora é alimentado não pela "industria do mal" mas pela "industria do bem" que também precisa de lucro para sobreviver e que coloca um monte de medos na cabeça das pessoas para gerar consumo.

Quando eu vi aquela mãe revoltada com a cera da maçã, logo pensei que iriam lançar a maçã orgânica sem cera alimentícia. E o vídeo com ela dizendo "eu não dou isso para minha filha" dispararia o motor da culpa das mães que não podem dar algo tão ruim, e que nem sabem que a tal da cera nem faz mal.

Não, não estou fazendo propaganda de nada. Minha intenção é dizer que por trás de tanta preocupação existe sim um traço obsessivo importante e que não pode ser menosprezado.

Uma coisa é se preocupar, buscar o melhor, questionar. Super saudável. Outra coisa é levar essa preocupação a níveis patológicos onde viver começa a ficar muito caro e complicado.

Pense nisso.

Minha avó viveu 96 anos. E nem sonhava com todas essas variaveis. Apesar de todos os poréns, a humanidade vive cada vez mais. Podemos e devemos buscar o melhor, sempre. Mas sem paranóia.

Um abraço com um pouquinho (não muito) de agrotóxico.
Rena
ta






domingo, 7 de setembro de 2014

Como saber se meu filho é mimado?

Todos os dias eu escuto frases com a palavra "mimado". Fulaninho ficou mimado, a filha da vizinha é mimada, o caçula é sempre mimado e por ai vai...

Mas como saber se nossos filhos estão sendo educados da melhor maneira possível? Sim, possível, pois perfeito é D´us e no mundo dos mortais nós erramos.

Em primeiro lugar quero deixar clara a diferença entre ser mimado e ser amado. Ser mimado tem a ver com a busca da realização de todos os desejos da criança. Ser amado é um sentimento que antes de tudo precisa ser percebido pelo outro. Eu sinto o amor.

Assim eu posso ser mimado e pouco amado, por exemplo.

O problema começa ai. Muitas pessoas acreditam que amar é sinônimo da realização de todos os desejos da pessoa amada. Só que os pais, além de amar, precisam educar, por amor.

A criança que tem todos os seus desejos atendidos, (e claro que não estou falando de um bebê recém nascido, eu me refiro a crianças maiores) não aprende a tolerar frustrações. Não aprende a batalhar suas conquistas. Acha que o mundo está ali para servi-la. A criança mimada fica brava demais quando não é atendida e não cria soluções criativas para encarar as adversidades. Ela acha que os outros tem que resolver seus problemas e não ela por si só.

Quando damos a chance da criança "se virar" sozinha, seja para subir em um brinquedo no parque, seja para solucionar um problema de matemática, seja para aprender a esperar sua vez de brincar ou jogar, estamos gradativamente expondo ela a situações onde ela usa recursos emocionais para lidar com suas frustrações. Se conseguimos expor a criança a doses suaves de frutração, ela naturalmente vai entendendo que o mundo não existe apenas para servi-la.

Porém, se eu realizo todos os desejos do meu filho, se eu não dou a chance dele se virar sozinho e ter suas conquistas, de aprender a lidar com seus erros, se eu não ensino a ele que suas atitudes tem consequências, eu crio uma realidade ilusória, um mundo que não existe. Só que o mundo está ai e não é feito só de pessoas dispostas a "mimar" nossos filhos. Uma hora eles vão ter que se virar.

E ai?...

E ai que cada dia é mais comum eu encontrar pessoas deprimidas, revoltadas, inadequadas, com uma grande dificuldade para encontrar um lugar na sociedade, se encaixar em um emprego ou atividade que exige disciplina, porque não entendem que tem que se esforçar, que precisam seguir regras e que o mundo não está disposto a ser "super compreensivo" nem a "suprir todas as suas necessidades" só porque precisam ou querem muito. 

O resultado é que essas pessoas vão começar a se frustrar de verdade na vida adulta e isso será muito doloroso. Nós pais não somos eternos.Não vamos conseguir suprir todas as necessidades de nossos filhos para sempre. Uma hora eles vão ter que se virar, vão ter que conquistar seu dinheiro sozinhos, muitas vezes formar uma família e transmitir a educação que receberam para nossos netos, ainda que melhorada.

Desta forma, um dos maiores presentes que podemos dar para nossos filhos é a capacidade de se virarem sozinhos. De ter resiliência, de saber cair e levantar, pois faz parte da vida. A criança mimada não consegue fazer esse movimento, não consegue se levantar sozinha, não consegue usar a criatividade para superar obstáculos e dar conta das derrotas inerentes a vida de todo mundo. Ela chora, esperneia e espera sempre que o OUTRO resolva seus problemas, sua dor. Ela é dependente e qualquer contrariedade a faz sentir desamparada e insegura. Ela não teve chance de aprender seus próprios recursos e que "tudo bem cair", a gente levanta.

Se você quer que seu filho seja um adulto capaz de viver bem em sociedade, não mime seu filho. Dar amor e mimar são duas coisas completamente diferentes. Ame, abrace, beije, faça massagem , carinho, lembre se sempre se reforçar e valorizar suas conquistas, de elogiar seus esforços. Mas dê também a chance dele se levantar  e se virar sozinho. Diga "não" quando for necessário, mostre os limites, seja firme (sem ser agressivo) e ensine a ele que não tem problema errar ou perder, é assim mesmo, faz parte da vida.

A confiança que você transmite ao seu filho de que ele é capaz e que você acredita que ele vai chegar lá, com as próprias pernas, que as quedas fazem parte, os erros fazem parte, mas o importante é saber jogar as regras do jogo e se esforçar, é um grande presente, uma enorme prova de amor que seu filho vai levar e usar por toda a vida.

Não realize todos os desejos da criança. Deixe ela se esforçar para plantar e colher os frutos das suas conquistas, acertos e erros. Amanhã ela vai te agradecer e não vai sofrer tanto quando o chefe recusar um aumento de salário ou quando a(o) namorada(o) lhe "der um fora".

"Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima"

Beijos sem muito mimo.
Renata

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Como educar sem bater. Posso dizer "não"?

Sempre achei que extremos são perigosos e na educação penso a mesma coisa.

Dá para educar sem bater? Dá sim. Bater é totalmente dispensável. È possível educar sem dar nem mesmo uma palmada.

E educar sem dizer "não"? É possível? Eu particularmente não acredito nisso.

A educação é um processo contínuo que exige muita paciência. Educar é de fato repetir. Repetir inúmeras vezes até que que a criança consiga entender, por exemplo , que precisa escovar os dentes, dar a descarga, tomar banho, fazer a lição de casa.

Mas além de repetir, o "não" tem um papel muito importante.

Quando dizemos "não" para alguns comportamentos de nossos filhos, ensinamos a eles que existem momentos em que podemos e devemos dizer esta palavra. Seja para nos proteger, seja para nos impor, seja para deixar a preguiça de lado (não vou brincar, vou estudar, por exemplo).

Nossa sociedade é feita de regras. Não podemos matar, roubar, ferir. No caso de crianças, não podemos pegar o brinquedo do amigo enquanto ele estiver brincando. Não podemos morder, nem empurrar. No caso dos adolescentes as coisas começam a ficar um pouco mais complexas. Não devemos beber demais, nem fazer sexo sem camisinha.

Lembro me bem da minha filha mais nova quando ela queria colocar o dedo na tomada. A casa é segura e não é possível que ela coloque. Mesmo assim, sempre achei importante sinalizar a ela que aquilo é perigoso, mesmo que ela ficasse muito brava comigo. Da mesma forma, não pode colocar milho no ouvido do cachorro. Mesmo que isso pareça super interessante.

Há momentos em que conseguimos distrair a criança com outra atividade e mudar o foco. Mas existem aqueles momentos em que a criança insiste em uma ação, mesmo sabendo que é errada, mesmo sabendo que vai trazer danos (como no caso do cachorro) E ai? O que fazer?...

Já escutei muito que colocar a criança de "castigo" é um crime contra a humanidade. Eu discordo.

A palavra "castigo" trás mesmo um sentido pejorativo, talvez seja necessário criar alguma outra palavra que possa caracterizar o ato de parar uma ação e refletir.

Atendi um casal que não dizia "não" para o filho de 2 anos e meio. Achava que isso iria traumatizá-lo. O resultado disso, era um menino muito difícil. Ele gostava de jogar as coisas pela janela. Qualquer coisa, desde controle remoto da TV, até alimentos. O problema é que ele morava em um edifício e a qualquer momento as coisas que ele arremessava poderiam ferir gravemente alguém. O síndico do prédio já havia advertido e os pais já tinham explicado para a criança que aquilo era feio e que poderia machucar muito uma pessoa que estivesse passando. Mas o menino continuava a arremessar os pertences da família pela janela. Ele de fato queria um limite.

Minha sugestão foi que tirassem os objetos da mão dele e que ele fosse privado de brincar com o que tentava arremessar. Desta forma, toda vez que ele ameaçasse jogar objetos pela janela, a brincadeira teria fim. Ele teria que parar o que estivesse fazendo e ficar de "castigo" até entender que aquilo era ruim e perigoso para outras pessoas. Além do prejuízo que trazia para a família que havia perdido muitos itens da casa por causa do comportamento do filho.

Assim foi feito. O menino ficou muito bravo. Não sabia o que era frustração. Se jogou no chão, gritou, e chegou até a colocar a mãozinha na garganta para provocar o vômito. Os pais ficaram preocupados. Acharam que ele queria dizer alguma coisa, que precisavam acolher aquela dor.

Acolheram, deram colo, se mostraram compreensivos. Coitadinho, é apenas uma criança. O menino se acalmou, se abraçaram e assim que parou de chorar o menininho levantou-se e foi direto para a janela jogar mais uma bolinha.

Colocar limites é essencial. Erik Neumann já dizia: "Os limites são tão importantes para o desenvolvimento sadio quanto o amor". Não tenha medo de colocar limites em seus filhos. Mesmo que eles fiquem muito, muito bravos com o "não". Esse "não" será introjetado e amanhã ele vai conseguir dizer "não" para muitas coisas como drogas, promiscuidade, preguiça e delinquência. Se seu filho não escutar essa palavra, ele não saberá dizer ela.

Ficar de "castigo" é uma forma de mostrar a criança que as coisas tem consequências. E tem mesmo. Experimente chegar atrasado no dia do vestibular. Ou não cumprir horários/prazos no seu novo emprego. A vida não é um playground. Existem regras que precisam ser cumpridas. Se gradativamente vamos ensinando nossos filhos que existem consequências, que existe troca e que ele precisa fazer a parte dele na família, na escola e mais tarde na sociedade, vamos aos pouco construindo o caráter, formando um cidadão.

Mas ao contrário, se nunca há consequência nenhuma, nenhum tipo de "castigo"(impedimento ou pausa para a reflexão) para os atos errados, se eu posso fazer tudo o que eu quero que não há consequências negativas, meus pais vão continuar me dando tudo o que estiver ao alcance deles, indiscriminadamente, não preciso me esforçar para nada, eu crio a ilusão de um mundo fantasioso onde a ação e reação não existem.

É claro que esse é um aprendizado gradativo. É claro que teremos que repetir infinitas vezes frases como "você escovou os dentes?" ou "fez a lição de casa?". Isso faz parte do processo da educação. Mas continuar premiando com presentes/passeios numa vida normal uma criança que não colabora, que não faz sua parte, não arruma seu quarto, não cumpre com suas obrigações de estudante, não ajuda nas tarefas domésticas, é o mesmo que dizer à ela que esforço é uma bobagem.

Disciplina e força de vontade são a chave para se alcançar qualquer objetivo. E para se ter disciplina e força de vontade, temos que aprender a dizer "NÃO" para desejos momentâneos, temos que abrir mão, fazer escolhas e muitas vezes sacrificar prazeres. Pergunte para qualquer pessoa bem sucedida quantas vezes na vida ela precisou se esforçar para chegar lá.

Disciplina e força de vontade se aprende pelo exemplo, mas também quando entendemos que na vida há consequências boas e ruins. Depende de nosso comportamento e de nossas escolhas.

Quando minhas filhas insistem em uma ação errada, nociva para elas ou para outros, elas ficam de "castigo" sim. E dessa forma elas aprendem que eu e o mundo não toleramos certos comportamentos. Elas aprendem a serem tolerantes a frustração e aprendem resiliência. Isso não diminui o amor que eu sinto por elas. Na verdade essa é uma grande prova de amor, pois educar e dizer "não" é muito mais difícil do que fazer todas as vontades das crianças.

Um abraço sem medo de educar,
Renata

Foto: http://www.rioeduca.net/blogViews.php?bid=18&id=3289