quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Guerra de Mães na Internet?... Quem é o dono da verdade?

Estava dando uma olhada nos blogs de mães que existem no Brasil e resolvi me pronunciar sobre isso.

Muito interessante. Existe uma verdadeira guerra de "verdades", uma competição entre as mães para dizer que tipo de mãe é o certo, que tipo de mãe é mais mãe, mais verdadeira, mais "natural", mais realizada, mais, mais, mais... Quem amamenta mais, quem se entrega mais, quem vive mais a maternidade, quem está mais próxima do ideal.

Que triste isso.

Imediatamente veio a pergunta, pra que tudo isso?

Linhas e linhas de relatos romanceados de experiências "ma-ra-vi-lho-sas" que carregam a mensagem de que a experiência descrita é a melhor, a mais certa, a ideal, a que deve ser seguida.

Seu bebê usa chupeta? Precisou de leite artificial? Nasceu de cesária? Então você não sabe nada. Você não leu, não se informou, não sabe o que é ser feliz, não ofereceu o melhor ao seu filho. E dá-lhe culpa!

Do outro lado mães defendendo o direito ao trabalho e a realização profissional, ou o direito a escolha de um parto cesário, ou a qualquer outra escolha que não seja a mais "natural" (entre aspas mesmo).

E quem está certo(a)? Ninguém. Ninguém mesmo. Que me desculpem as donas da verdade, mas verdade é única e exclusiva para cada ser humano. Seu marido pode ser ótimo para você e não para mim. Seu estilo de vida pode ser lindo para você e não para sua prima. Amamentar pode ser maravilhoso para algumas mulheres e muito complicado para outras.

E o mais incrível é a agressividade dos debates, como se não houvesse espaço para o diferente. E as amigas de cada "time" se unem para atacar quem pensa diferente delas. É como se fosse uma igreja da maternidade onde estarão "salvos" aqueles que rezam uma determinada bíblia. E só estes.

No meio dos desabafos e dos "sinta-se abraçada amiga", muitas mães deprimidas, culpadas demais, desamparadas por quererem corresponder a um modelo pré determinado.

E claro, o assunto sono sempre surge.

E eu queria saber em qual pesquisa está descrito que o bebê que dorme a noite toda sofreu "desmame noturno precoce".

Qualquer pediatra, natureba ou não, sabe que após os 6 meses, depois que o bebê já está se alimentando bem com os sólidos, ele já é capaz de dormir a noite, sem precisar mamar. Mesmo que ele mame no peito. Ora, tenho 2 filhas que mamaram quase 1 ano. A segunda ficou com amamentação exclusiva no peito por 7 meses por causa de alergia a proteína do leite e ambas NÃO precisaram mamar durante a madrugada. Recebo em meu consultório diariamente mães que desejam dormir a noite, que PRECISAM dormir a noite e nem por isso alguém deixou de amamentar. Inclusive prolongadamente.

O problema é que as mães confundem livre demanda com usar o peito para induzir o sono. E ai, se você deseja fazer isso, usar seu peito (ou mamadeira, ou qualquer outra coisa) para induzir o sono do seu filho por 2 anos ou mais, saiba que você é de uma classe social privilegiada que pode se dar ao luxo de dormir durante o dia enquanto muitas mulheres necessitam trabalhar para sobreviver. E que elas não são menos mães por isso. Muito menos egoístas. Por favor, não use esse discurso da amamentação para justificar a prática de induzir o sono do seu filho.

Sou mega a favor da amamentação. Para poder amamentar minha caçula ia e voltava São Paulo/Cotia de 2 em 2 horas. Mas sei que amamentar não é algo puramente biológico. Existem aspectos psicológicos muito importantes envolvidos nesse ato. Às vezes a mãe não quer ou não consegue amamentar seu filho, por milhares e diversas questões. Existem também os bebês adotados que
precisam ser amamentados com leite artificial. Nem sempre a traslactação é algo desejado ou possível.

E ai? Vamos queimar essas mulheres vivas? Vamos dizer que são umas coitadas, perversas, egoístas, menos mães, ignorantes, desinformadas e que perderam o melhor da festa? De jeito nenhum.

A palavra de ordem aqui é respeito. Respeito a escolha daquilo que é possível para cada mulher. Respeito a realidade de cada ser humano, seja ela financeira, emocional, física, social ou psíquica. Vivemos em uma democracia. As pessoas tem o direito a escolha. Não existe um único caminho para a saúde e felicidade. Isso é uma grande, enorme bobagem. Do ponto de vista da composição, o leite materno é mais saudável, fato. Mas o leite materno dado com raiva, com mágoa, ressentimento, por uma mulher contrariada e que não quer amamentar é pior que dar uma mamadeira com afeto e paz. A criança sente, percebe.

Meu recado para as mães de todo o mundo: Não comprem receitas prontas do que é certo ou errado. Informe-se e escolha. Faça você a sua história. Não há verdade absoluta. A única coisa absolutamente certa na vida é que um dia vamos morrer. Mesmo a ciência muda de tempos em tempos e axiomas caem, como o ovo que já foi o grande vilão das dietas e hoje não é mais.

Você é livre. Pratique aquilo que faz sentido para você. Se você estiver feliz, realizada, descansada e seus filhos puderem conviver com uma pessoa assim, é muito melhor do que querer corresponder a um ideal imaginário de perfeição que nada tem a ver conosco seres humanos.

Além disso, seria bem melhor se deixássemos as bandeiras de lado e pudéssemos trocar experiências, ideias, pensamentos. O debate é construtivo quando há troca, respeito.

Viva a democracia! Viva o direito de ser livremente!

Beijos para todas as mães imperfeitas como eu!



3 comentários:

  1. O que eu posso dizer como pai , pediatra (pseudo psicologo) pois no dia a dia dos consultorios e postos de saúde tenho que orientar muitos casais sobre o que é certo e viável para eles como família, seu texto me agradou muito , mas a mensagem que vc quis passar não era o texto em si , eu entendo que a principal mensagem a ser passada a todas as mães-pais é que mesmo não concordando com alguma idéia devemos deixar nossos discursos de ódio , cinismo e deboche de lado e cuidar com o que vamos profetizar sobre o que é certo e errado .

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  2. Olá! Tbm sou Psi e autora de blog sobre questões da maternidade. A grande questão, penso eu, nem é tanto quanto as bandeiras levantadas a respeito da maternidade, acho isso até benéfico em alguns pontos, pois a maioria se propõe a ajudar, a buscar uma melhor saída para determinadas questões, como a banalização da cesariana por exemplo. Sou super a favor do parto normal, mas sempre falo que Mãe é mãe independente do parto... até porque não é porque pariu que se é mãe, mãe vai além disso, é na maternagem que se identifica uma mãe! Concordo que o direito de escolha de cada um tem de ser respeitado e ofensas são sempre falta de conhecimento sobre o assunto. Mas, se há incomodo no discurso do outro, há identificação de alguma forma; não concordas?!

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    1. Oi Ariela, não necessariamente. Depende do momento em que o discurso é colocado e as circunstâncias. Se alguém é agredido e está se defendendo, se é criticado no que acredita, ou na forma como vive e atua. Se a pessoa só expressa uma opinião é uma coisa. Se ela expressa querendo dizer que o outro está errado, esse outro pode se sentir agredido e contra atacar. Não podemos generalizar, principalmente em psicologia.
      Se eu digo que o parto natural é melhor que o parto cesariano, as mães que fizeram cesariana podem se sentir ofendidas. Os dois tipos de parto (só citando um exemplo) tem prós e contras, assim como outros temas discutidos nos blogs. O ponto é que as pessoas tem o direito a escolha. Escolher uma cesariana agendada, por exemplo, pode ser um absurdo completo para as mães que defendem o parto natural, mas pode fazer sentido para a mãe que fez a escolha. Por exemplo, tive uma paciente que perdeu um bebê durante o parto normal. Uma tragédia, acontece. Ela não quis fazer parto normal novamente. Tinham aspectos que precisavam ser trabalhados, mas não tinha chegado o tempo dela. A decisão foi respeitada e ela fez uma cesáriana. Pode escolher. Acho válido.
      Meu raciocínio segue esta linha. A de que precisamos respeitar as ideias e opiniões, mesmos que divergentes. Isso não significa falta de informação, pois o que rege nossas decisões não são apenas aspectos racionais, mas emocionais, culturais, além de todas as fantasias que permeiam a psique. Algumas conscientes, outras não.
      Por isso o respeito é tão importante. Quando falamos com uma pessoa pela internet, não sabemos o que está por trás daquele discurso. Mesmo no consultório, pode levar tempo até que uma análise possa ser feita. Assim, falar que há identificação é partir do princípio que a psicologia é uma ciência exata e não é.

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